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O cinema é relevante nos currículos escolares, possibilitando pensar a respeito de complexas e múltiplas questões dos cotidianos; com ele é possível a reinvenção de si e do mundo.
Segundo Gilles Deleuze (“Cinema 2: a imagem-tempo”), o cinema cria realidades que nos permitem pensar acerca daquilo que foi produzido no que nos é mostrado, de maneira a tecer inúmeros ‘conhecimentos-significações’ quando ‘vemos-ouvimos-sentimos-pensamos’ filmes. Percebemos que esses processos contribuem em processos formativos dos ‘praticantes-pensantes’ nos/dos/com os cotidianos, inclusive os das escolas [corrente de pesquisa na qual as ‘conversas’ são entendidas como lócus principal]. O trabalho com imagens e sons, nas escolas, permite ‘conversas’ acerca dos ‘conhecimentos-significações’ que as crianças e os jovens tecem em seu contato com outros seres humanos, nas redes educativas pelas quais circulam. Importante ressaltar, então, que entendemos o cinema como um artefato cultural-tecnológico-curricular que rompe com práticas pedagógicas engessadas apresentadas em currículos oficiais permitindo questionamentos que ampliam os ‘saberes-fazeres’ dos estudantes, gerando múltiplas criações e aprendizagens. Ademais, entendemos, ainda com Deleuze, o cinema como potência do real, possibilitando pensarmos a respeito de complexas e múltiplas questões existentes nos cotidianos. Por estes motivos, acreditamos na relevância do cinema nos currículos escolares, pois com ele é possível a reinvenção de si e do mundo. Assim, escolhemos trabalhar com dois filmes que se mostraram como desencadeadores de ‘conversas’ relevantes com estudantes: “La noire de...” (Ousmane Sembene, Senegal, 1966) e “Que horas ela volta?” (Anna Muylaert, Brasil, 2015) contam as histórias de Diouana e Val, que saíram da sua terra natal para trabalharem como empregadas domésticas em outra região, uma delas em outro país.
Os dois filmes mostram narrativas de mulheres com protagonismo em suas próprias histórias de vida, mas em difíceis processos de trabalho. A forma como essas mulheres conseguem subsistir, utilizando sua força de trabalho numa perspectiva de cuidado com o outro, faz com que elas abram mão de suas próprias vidas a maior parte do dia. Nossa metodologia consistiu no que denominamos, em nosso grupo de pesquisa, de ‘cineconversas’, nas quais assistimos juntos os filmes – nossos estudantes e seu docente – e, em seguida, ‘conversamos’ acerca das ideias e afetos produzidos pelo filme ‘visto-ouvido-sentido-pensado’. As narrativas dos filmes possibilitam o surgimento de narrativas pessoais dos estudantes que indicam as múltiplas redes educativas que formam e nas quais se formam, cotidianamente. Dessas ‘cineconversas’, destacamos algumas problematizações feitas pelos estudantes. Muitos se reconheceram nas histórias, como filhos, irmãos e amigos de mulheres migrantes que lutam por seus sonhos e melhores condições de vida, atuando em trabalhos domésticos. Uma das questões mais ressaltadas pelos estudantes foi a remuneração deste tipo de trabalho. Apesar de serem remuneradas, essas mulheres trabalhavam ininterruptamente, sem limite de horas, estabelecendo uma linha tênue entre o trabalho remunerado e o não remunerado, justificado, pelos empregadores, pelas relações pessoais de proximidade. Nessas conversas, grande parte dos estudantes relacionaram, então, esse trabalho como uma forma análoga à escravidão.
Marcelo Machado e Maria Cecilia Castro
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