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O cinema interessa aos indígenas como produção híbrida, que pode ser apropriada para produzir histórias, memórias, narrativas, representações, imagens de uma vida que eles desejam dar a conhecer.
A produção que nomeio como cinema indígena corresponde a um conjunto de narrativas fílmicas cuja realização resulta da ação direta de membros de distintas etnias indígenas brasileiras. Os filmes produzidos por indígenas acionam modos de narrar próprios de cada etnia e investem em estéticas singulares; ao fazê-lo, operam como pedagogias culturais e educam nosso olhar. Pode-se dizer que é por meio de um estranhamento radical que se realiza essa educação do olhar: estranhamos os roteiros, as formas de edição, as histórias narradas; estranhamos a figura de um índio com uma câmera na mão (tecnologia exógena), capturando cenas em meio a uma floresta, ou junto ao fogo aceso em uma habitação de chão batido; estranhamos também imagens nas quais se desloca o indígena do espaço usualmente entendido como sendo seu ‘habitat natural’, a transitar entre carros ou em áreas comerciais de grandes metrópoles. O conceito de pedagogias culturais diz respeito aos múltiplos lugares em que se produzem conhecimentos, em que se traduz e se representa a experiência vivida, em que se consolidam verdades sobre coisas, sujeitos e acontecimentos. Pode-se dizer, também, que há intencionalidade pedagógica nos diferentes lugares onde se constroem representações, onde se investe em identidades e onde o poder é organizado e difundido (Shirley Steinberg, “Produzindo múltiplos sentidos - pesquisa com bricolagem e pedagogia cultural”, 2015). Assim, os filmes de cineastas indígenas operam pedagogicamente ao constituírem certos lugares de fala, ao divulgarem formas de pensar e de viver de uma dada coletividade, ao tornarem visíveis formas particulares de dar sentido às relações entre os seres, e destes com uma língua, com um território e com um universo de conhecimentos próprios e compartilhados. O cinema indígena funciona como pedagogia cultural, ainda, quando contesta e desloca estereótipos propagados em produções culturais sobre os indígenas e, desse modo, participa de uma rede mais ampla de ações, dentro do que se tem chamado de políticas da diferença.
Um espaço propulsor do cinema indígena tem se produzido no âmbito do projeto Vídeo nas Aldeias, criado em 1986 e precursor na área de produção audiovisual deste tipo, no Brasil. Desde o início, quando surgiu como um experimento realizado por Vincent Carelli e vinculado ao Centro de Trabalho Indigenista (CTI), o projeto visava apoiar as lutas dos povos indígenas, colaborando para o registro de seus bens culturais. A primeira experiência se desenvolveu na aldeia do povo Nambiquara – 3000 habitantes nos estados de Mato Grosso e de Rondônia – e, ao perceber o potencial deste recurso e a receptividade na exibição das filmagens nas próprias aldeias, Carelli decidiu levar a experiência a outros povos e, a partir de 1997, realizaram-se oficinas de formação audiovisual para os que desejavam produzir seus próprios filmes. Um importante acervo de imagens está hoje disponível, contando mais de 80 filmes feitos por cineastas de 37 povos indígenas do Brasil, sendo a maioria destas produções premiada em festivais de cinema nacionais e internacionais (Juliano Araújo, Cineastas Indígenas, Documentário e Autoetnografia, 2015). A incorporação de tecnologias exógenas à vida indígena não é um fenômeno recente. Basta pensarmos que a escrita – como tecnologia de produção de memória e de registro – vem sendo incorporada por alguns povos, de modos variados, há séculos. No atual contexto, os cineastas de diferentes etnias vem buscando entender como funcionam e como podem ser úteis essas tecnologias para a expressão de suas próprias formas de pensar o mundo, o espaço, o tempo, a arte, e, também, como estratégia para dominar o ritmo e a direção das mudanças que ocorrem, inevitavelmente, em qualquer cultura. Nesse sentido, Isaac Pinhanta, professor e cineasta da etnia Ashaninka explica: “se o vídeo vem ajudar a gente a se organizar, se ele traz alguma mudança, somos nós que estamos mudando, não é ninguém que vem de lá de fora. Alguém pode vir só nos orientar como usar, mas quem vai usar esses instrumentos somos nós. E se houver alguma mudança, somos nós mesmos que estamos fazendo ela acontecer”.
Iara Tatiana Bonin
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