|
Um encontro com Alberto Manguel (parte 1/3)
Escritor, poeta e ensaísta, é, também, editor, crítico, conferencista e organizador de antologias. Mas é, sobretudo, um amante de livros e de bibliotecas. O homem elegante e sereno que atravessa discretamente o auditório da Biblioteca Pública de Torres Novas em direção ao palco é um contador de histórias muito especial. Pelo encanto que irradia, percebe-se por que razão Georges Steiner lhe chamou um dia “Don Juan das Bibliotecas”. Eu aguardo tranquilamente que me seja contada uma história, facto cada vez mais invulgar na atualidade. Pausadamente, Alberto Manguel começa, então, a contar uma história.
Pode dizer-se que este contador de histórias não é uma pessoa qualquer, porque desde muito jovem adquiriu a sabedoria da arte da oratória. Foi este o homem que, na sua juventude, Jorge Luís Borges escolheu para seu leitor pessoal. Borges frequentava as livrarias, mas não à procura de livros; quase cego, pretendia encontrar leitores que lessem para ele em voz alta. Aos 16 anos, Alberto Manguel trabalhava na livraria Pygmalion, em Buenos Aires, quando Borges ali entrou, acompanhado da mãe, e lhe pediu que lesse para ele em sua casa, pois a mãe, velha senhora com quase 90 anos, já se cansava muito ao fazê-lo. E entre 1964 e 1968 passou a ler para o poeta, facto determinante na construção da sua personalidade e da sua cultura enquanto leitor e escritor. Nessa altura, confessa, não admirava Borges: “Era famoso, mas eu lera apenas alguns dos seus poemas e histórias, e não me sentia avassalado pela sua literatura” [«Uma História da Leitura», Editorial Presença,1998]. Confessa, igualmente, não ter sabido beneficiar da posição privilegiada que ocupou junto de Borges. Hoje, afirma ironicamente ter sido um adolescente que, “com a arrogância típica da juventude, acreditava que estava a fazer um grande favor a um velho cego”, não se dando conta do quanto aprendia lendo para Borges. Curiosamente, esta distância inicial dará lugar a uma profunda admiração e Borges virá a tornar-se um dos seus escritores de referência, influenciando excecionalmente a vida e a obra do jovem Manguel: “Ficava deslumbrado não tanto com os textos que ele me fazia descobrir (muitos dos quais acabaram por se tornar meus favoritos), mas com os seus comentários, que eram de uma vasta mas discreta erudição“. Este relacionamento na juventude virá a ser renovado mais tarde, quando regressa à Argentina para substituir Borges no cargo de diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Em 2003 é editado o livro «Com Borges», no qual Manguel relata a experiência que foi ser leitor de Borges e expressa a sua fortíssima admiração pelo poeta. Na obra descreve minuciosamente o ritual das sessões de leitura, que decorriam no “sexto andar de um discreto prédio de apartamentos no centro de Buenos Aires, perto da praça San Martín.” Ficamos a conhecer a geografia do apartamento através da descrição exaustiva do mobiliário, poltronas, mesas e prateleiras onde Borges guardava os livros que usava para estudar. As fotografias e quadros colocados nas paredes, a disposição dos livros nas prateleiras e ainda os pequenos episódios do quotidiano de Borges fazem parte da narrativa que nos transporta até ao mundo austero e mágico da intimidade do poeta.
Uma vida peripatética. Alberto Manguel nasceu em 1948, na Argentina, é canadiano, viveu em França e reside atualmente em Nova Iorque. Natural de Buenos Aires, viveu até aos sete anos em Telavive, onde o pai foi o primeiro embaixador argentino em Israel. Depois da marcante experiência enquanto leitor de Borges, deixa a Argentina pouco antes da instalação da ditadura militar e parte para a Europa, em 1969. Severo Sarduy, Hector Bianciotti, Julio Cortázar e Geneviève Serreau são as suas figuras tutelares durante este período, facilitando-lhe generosamente a transição para a vida no estrangeiro e ajudando-o a viver da escrita. Em 1970, inicia uma “vida peripatética”, entre França, Inglaterra, Itália e Taiti, exercendo a profissão de escritor, revisor e editor, sem nunca deixar de ser um apaixonado leitor. Em 1980, juntamente com Gianni Guadalupi, fez a compilação do «Dicionário dos Lugares Imaginários», iniciando-se então uma estreita colaboração com a editora Louise Dennys. Depois de 1983, Manguel partiu para o Canadá, onde viveu e educou os três filhos durante 20 anos. Tornou-se cidadão canadiano: o seu casamento com o Canadá foi um “casamento de amor”, afirma. Escolheu o Canadá como o país ao qual quer pertencer, porque é o único que conhece que se parece com uma democracia e onde pode participar de forma eficaz e consciente na construção de um discurso político: “É o único país no qual eu posso ser um cidadão e, enquanto cidadão, ter um papel ativo no modo como se conduz esse país”.
Em França, perder-se numa biblioteca. Sobre a sua biblioteca pessoal, instalada num antigo presbitério de pedra no vale do Loire, Alberto Manguel diz que “uma biblioteca não é feita para nos encontrarmos, mas para nela nos perdermos”. O local encantatório que o escritor escolheu para instalar os seus 35 mil livros foi, durante 15 anos, o lugar de memória e imaginação onde se perdeu e onde construiu a sua própria cartografia, a sua “geografia imaginária”. Pareceu a Manguel e ao seu companheiro que o celeiro parcialmente demolido seria suficientemente grande para albergar a sua biblioteca e julgou que, tendo encontrado o lugar para os seus livros, tivesse encontrado também o seu lugar. Mas enganou-se. Em «Embalando a Minha Biblioteca», descreve os momentos de júbilo e de satisfação passados no local onde foi instalando a biblioteca pessoal: a “selva exuberante de papel e tinta”, essa extraordinária criatura, constituída, como ele próprio diz, “por várias camadas de bibliotecas que foram sendo construídas ao longo da sua vida, adquirindo por isso a faculdade de narrarem, elas próprias, a história da vida do dono destes livros”. Biblioteca que, tal como havia escrito Walter Benjamin, faz viver o autor através dos livros que possui, fazendo-o desaparecer dentro dela. Esta biblioteca física de Manguel transforma-se numa entidade possuidora de qualidades narrativas – e assim sendo, se cada livro arrumado na prateleira nos conta uma história através das palavras que encerra, o conjunto dos livros conta a história da vida de quem os lê e possui. Mapeando uma biblioteca pode construir-se uma imagem de quem a possui, alcançando-se um conhecimento mais claro e profundo acerca do que foi a vida do leitor dessa biblioteca. Em 2015, por razões meramente burocráticas, terminaram os dias de serenidade que havia passado entre os seus volumes. Os problemas com a administração fiscal francesa agudizaram-se e, no verão, decidiu abandonar a França e a sua tão amada biblioteca. Tinham-se acabado os tempos felizes passados entre as “pilhas de volumes desenterrados”, desembalando a sua biblioteca. Aquilo que classificou como um “ato selvagem de renascimento” deu lugar à melancólica tarefa de desmantelar a biblioteca, ou, tal como afirmou, “sepultá-la ordenadamente” (*). A biblioteca do Loire foi embalada e transportada para um armazém em Montreal, onde jaz desde então, e Manguel diz que ainda hoje ouve os seus livros chamarem-no em sonhos.
Na Argentina, o Paraíso é uma biblioteca. Por ironia, pouco depois de embalar a sua biblioteca pessoal, em 2016, Alberto Manguel foi convidado para ocupar o lendário lugar que anteriormente havia pertencido a Borges, enquanto diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires (BNA), cargo que ocupará durante dois anos e ao qual renunciará em 2018. Acerca deste período, conta que, quando assumiu o cargo de diretor da BNA, se comportou como uma pessoa que “durante muitos anos havia escrito receitas de cozinha, mas nunca tinha cozinhado nada.” Subitamente, encontrou-se “numa grande cozinha”, onde trabalhavam mais de mil pessoas. E, não sendo bibliotecário, apercebeu-se que não poderia aprender a sê-lo, “nem numa semana, nem num mês e, quem sabe, nem em dois anos”. Optou, portanto, por confiar nos bibliotecários e converter-se em administrador. Enquanto diretor da biblioteca, Manguel experimenta sentimentos contraditórios: se por um lado sentia um enorme prazer pela função que desempenhava, por outro mostrava-se pouco otimista. Quando ocupou o cargo, foi subitamente colocado perante uma série de dificuldades que pouco se relacionavam com a literatura, ou a leitura, ou com os livros: “problemas técnicos como substituir lâmpadas ou fazer com que o pouco dinheiro que nos dão fosse suficiente; como arranjar mais... problemas ecológicos, pessoais, familiares; problemas arquitectónicos...” Nota que, atualmente, os bibliotecários estão rodeados por um “oceano de forças negativas”, lutando contra o comércio da electrónica, que se esforça em nos fazer crer que o livro já não é necessário. Como as bibliotecas não produzem ganhos económicos imediatos, os políticos não lhes dão meios necessários para se manterem. Concorda que foi uma experiência das mais extraordinárias da sua vida, mas, ao fim de dois anos, o médico disse-lhe que teria de escolher entre deixar a BNA ou “morrer nela!”.
Ana Alvim
(*) nota: Por antítese, impossível não relacionar este texto de Manguel com o de Walter Benjamin, no qual o filósofo discorre sobre os seus sentimentos, enquanto abre os caixotes de livros, antes de os arrumar nas prateleiras da sua nova biblioteca: Benjamin, Walter, “Desempacotando a Minha Biblioteca, Uma palestra sobre o colecccionador”, Col. Imagens do Pensamento, Assírio e Alvim, Lisboa, 2004.
|