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Estamos perante uma série de novas perspetivas teóricas para enquadrar patologias já conhecidas e de formas diferentes de adoecer psiquicamente que podem ajudar a compreender fenómenos frequentes como o bullying e o cyberbullying.
Muitas mudanças sociais que temos vindo a testemunhar desde a segunda metade do século passado encontraram expressão em vários autores de expressão mundial. Cada um deles firma uma perspetiva sobre essas mudanças: Jean-François Lyotard, ao propor uma condição pós-moderna para o conhecimento científico, também ele fundado em provas submetidas a jogos de verdade e performance; Richard Sennett, com o conceito de corrosão do carácter, acompanhando escolhas profissionais e éticas cada vez mais vergadas às vicissitudes do mercado; o amor líquido de Zygmunt Bauman, dando conta de uma instabilidade e fragmentação dos laços emocionais. Dedicaremos esta breve nota a mapear alguns trabalhos na área da psicologia, também eles impulsionados pela necessidade de pensar todas estas modificações. Antes disso, porém, socorrer-nos-emos de um autor pós-Segunda Guerra Mundial que dava conta em «O Fim da Idade Moderna» (título de uma das suas obras) da fissura que surgia entre a responsabilidade individual e a ação de cada homem. Leiamos uma passagem: “...ao homem que vive assim chamamos «não humano». Esta palavra não exprime um juízo ético, tal como «humano» não exprime. Designa uma estrutura que se tornou histórica e cada vez mais característica – a estrutura na qual o campo de experiência do homem foi ultrapassado pelo seu campo de conhecimento e de ação.” (Romano Guardini) As estruturas tecnológicas e de um modo geral a forma como se fazem as grandes escolhas económicas, por exemplo, separa os decisores das consequências reais dos seus atos. A esta dimensão não humana, que sublinhamos em Guardini, somamos a dimensão narcísica também ela bastante considerada por autores como Gilles Lipovetsky e Christopher Lasch. Com eles, damos conta de que o espaço social foi invadido por princípios e motivações individuais. Neste momento, convoquemos alguns autores na área da psicologia. Gérard Lebrun sublinha a ideia de que a transmissão da condição simbólica mudou, de uma sociedade vertical para uma horizontal. Assim, cada indivíduo deixa de se situar – para o bem para o mal – perante uma ordem normativa que lhe exige escolhas. A partir de agora tudo é possível, eis a liberdade total: uma liberdade sem vínculos que exige aos indivíduos que se construam perante o nada (isto, concretizando, perante pais com dificuldades em impor regras porque tudo é possível também para eles).
David Zimerman chama também a atenção para uma mudança de centralidade: o pensamento e a palavra são progressivamente substituídos pela imagem. As imagens virtuais, criam possibilidades de confusão entre o que é real e o que é imaginário (por isso, pertencentes à ordem do puramente individual). O autor considera que a modificação deste estado de coisas “representa um estímulo à busca de ilusões, de simulacros, de fetiches, sendo que aquilo que parece ser é tomado como, de facto, sendo.” Assim, a realidade clínica, a experiência de sofrimento psíquico nos casos atendidos, tem vindo a modificar-se. Surgem formas de sofrer mentalmente agrupadas, segundo este e outros teóricos, sob o conceito de patologia do vazio. Zimerman considera aqui o sofrimento que envolva a identidade, os sentimentos de baixa autoestima, a “epidemia” de quadros depressivos e ansiosos. A estes, somam-se ainda os altos graus de angústia livre (p.ex., pânico sem significado associado); as personalidades ‘falso self’, as perturbações de personalidade narcísicas, as psicoses, os estados limite (borderline), as perversões, entre outras. Em relação aos jovens, e seguindo de perto o mesmo autor surgem, para além de algumas acabadas de referir, as somatizações, as perturbações do comportamento alimentar (como a bulimia e a anorexia), as perversões e as psicopatias, bem como o consumo de drogas. Estamos perante uma série de novas perspetivas teóricas para enquadrar patologias já conhecidas e estas formas diferentes de adoecer psiquicamente, que podem ajudar também a compreender fenómenos muito frequentes nas nossas escolas como o bullying e o cyberbullying. É forçoso que terminemos esta breve nota. Heinz Kohut já falava da substituição do homem culpado pelo homem trágico. Este é um homem que se debate com a diluição dos limites, que pugna pela ideia de liberdade total e o imperativo da autorrealização, mas que é esmagado por eles no derradeiro momento. Os limites existem: quanto às feridas que este embate pode causar, tentámos sinalizar aqui algumas delas.
Rui Tinoco
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