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A ‘ciência’ do futebol

Muita gente que pontifica no desporto ainda não ultrapassou nem o mecanicismo cartesiano, nem o solo epistemológico do positivismo. Ousaria mesmo dizer que, no futebol, há muita gente que pensa que sabe explicar o futebol sem nunca o ter compreendido.

O futebol, como qualquer outra modalidade desportiva, é, para mim, uma das formas da motricidade humana – como é lógico! Embora a pretensa cientificidade de muitos comentadores do futebol seja proporcional à sua ‘desumanidade’, quero dizer: quanto mais falam de futebol, menos humano se revela o discurso. É verdade que, desde os inícios do pensamento moderno, mormente com Galileu e Descartes, ‘homem’ e ‘ciência’ sempre se constituíram como duas realidades estranhas uma à outra: a inteligência, a personalidade, os sentimentos humanos não podiam pesar-se, medir-se, quantificar-se – não eram, com toda a certeza, científicos.
Demais, a ciência moderna nasce e desenvolve-se mecanicista. O universo é uma imensa máquina, composta por um enorme conjunto de máquinas, cujas leis importa conhecer. Por isso, Deus é o divino engenheiro, omnipotente criador de um universo que pode ser estudado, matematicamente. Não é de estranhar, assim, que os filósofos e os cientistas de mais ampla inteligência teorizadora tenham comparado o Mundo a um relógio.

Antropologia dualista. O ‘homem-máquina’ de Julien Offray de La Mettrie (1709-1751), filósofo materialista e médico que pretende ensinar que no mundo todo só matéria se encontra e é dessa matéria que o ser humano (e tudo) nasce e de que o ser humano é feito; minucioso e irónico, La Mettrie não abandona o mecanicismo, apontando as leis mecânicas que regem, segundo ele, as funções do corpo de um ser vivo. Um ponto a realçar – a partir desta altura, o sábio deixa de ser o clérigo aristotélico-tomista e passa a ser um leigo, uma pessoa que sabe que não tem a verdade, mas que imparavelmente a procura, pela razão e reflexão e pelo método experimental. No meu modesto entender, a história das ciências, que vai de Copérnico (1473-1543) a Newton (1643-1727), é de um progresso admirável e prepara o Iluminismo e informa, claramente, a Revolução Francesa...
Não surpreende, portanto, que Ciência, Razão e Progresso caminhassem de mãos dadas e que, no século XVIII, quando a expressão Educação Física (que integrava a ginástica, jogos e os desportos) surgiu no vocabulário científico, os exercícios ginásticos se destinassem ao ‘homem-máquina’, a um corpo-instrumento que a Razão esclarecia.
Vale a pena reler a Proposta de Lei, de 25 de fevereiro de 1939, apresentada à Assembleia Nacional para a criação do INEF (Instituto Nacional de Educação Física português), onde assim se define a Educação Física: “uma acção intencional que o homem, devidamente dirigido, exerce sobre si mesmo, pela prática racional, sistemática dos exercícios físicos – ginástica, jogos, desportos – metódica e conscientemente executados, como complemento essencial dos restantes meios educativos e higiénicos e tendo como objectivos imediatos a saúde, beleza, força, resistência, disciplina, prontidão, espírito de solidariedade, optimismo, confiança em si, domínio de si próprio, coragem, prudência, caráter, personalidade, tornando o corpo o digno instrumento de uma vontade esclarecida”.
Como se vê, uma antropagogia, ou teoria da formação do ser humano, assente no corpo-instrumento e apontando para uma antropologia declaradamente dualista. Enfim, a dicotomia corpo-mente, sentimentos-consciência, natureza-cultura emergia da Educação Física até meados do século XX.

Corte epistemológico. Muita gente que pontifica no desporto nacional e internacional ainda não ultrapassou nem o mecanicismo cartesiano, nem o solo epistemológico do positivismo. Ousaria mesmo escrever que, no futebol, há muita gente que pensa que sabe explicar o futebol, sem nunca o ter compreendido. Compreendido? Sim, porque ao nível do humano nada escapa à ordem dos valores e das significações, mesmo como exigência do rigor metodológico.
O que eu aconselharia aos ‘agentes do futebol’? Digo isto após uma severa autocrítica (porque, à boa maneira socrática, só sei que nada sei): um corte epistemológico em relação à pré-ciência de um senso comum que analisa o futebol, sem descontinuidade, nos problemas e na linguagem. O curso de um conhecimento verdadeiramente científico não é linear, o seu grande objetivo é respeitar o passado, mas construir o futuro, o que implica pôr de lado e rejeitar muito do que a tradição nos oferece.
“A exigência de objetividade, no sentido de objetivação, leva-nos necessariamente a descartar o caráter meramente acumulativo e continuista do saber, bem como a fazer da ideia de progresso descontínuo a espinha dorsal de toda a cientificidade. Se é assim, também esse progresso precisa ser pensado em termos de ruptura” [Hilton Japiassu, «Nascimento e Morte das Ciências Humanas»].
Rutura, em primeiro lugar, com uma organização apressada e desleixada dos clubes. Há dirigentes desportivos de exemplar amor pelos seus clubes, mas sem especialização bastante para, atualmente, organizarem um clube com alta competição, ou alto rendimento. Já é clássica a definição de Peter F. Drucker: “Uma organização é um grupo humano composto por especialistas que trabalham numa tarefa comum (...). Uma organização é sempre especializada. Define-se pelas suas tarefas (...). Uma organização só é eficaz, se se concentrar numa tarefa. Uma orquestra sinfónica não tenta curar doentes, toca música. Um hospital cuida dos doentes, mas não procura tocar Beethoven (...). A sociedade, a comunidade e a família são; as organizações fazem” [«Sociedade Pós-Capitalista», 2003].
E para as organizações fazerem é imprescindível o contributo de direções competentes. Donde, logicamente, se conclui que organizar é tornar produtivos os conhecimentos.

Para lá do físico. Mas, no âmbito das ciências humanas, um especialista é tanto mais eficaz quanto mais tiver em conta a complexidade humana, presente em todos os elementos que a constituem. Num treino de dominância física, o jogador de futebol (o atleta) é um ser de sentimentos. E se ele se encontra incompatibilizado com o treinador? E se nesse dia o pai está gravemente doente? E se um dos filhos ficou em casa, com febre alta? É evidente que, assim, o treino se transforma num espaço de insanável aborrecimento e, nalguns casos, de aversão.
Não passo sem sublinhar as palavras de António Damásio à revista do Expresso, de 28.10.2017: “Os humanos não têm apenas a inteligência, têm por exemplo a linguagem. E temos uma socialidade muito mais complexa do que a de outras criaturas. E os impulsos criativos. E, analisando estas respostas, vemos a ideia. A ideia forte é a de que tudo o que há de bom e de bem, tudo o que ajudou instrumentalmente a criar culturas nunca teria acontecido se não tivéssemos sentimentos. Sentimentos, ora de dor e sofrimento, ora de plenitude e prazer.” – e mais adiante, numa entrevista superiormente conduzida por uma jornalista com dotes notórios para o jornalismo (o que nem sempre sucede) e pessoa culta, que se topa no seu infatigável interrogar [Clara Ferreira Alves]: “O sentimento é a representação do imperativo homeostático”.
Nos ‘estudos’ de alguns pseudoespecialistas, o que é peculiar no jogador, por ser homem, é secundário e acaba por reduzir-se às necessidades primárias da tática... Não, eu não digo que a tática não é importante; o que digo é que, antes da tática, está o homem-jogador. Só podemos esperar respostas humanas dos jogadores se os respeitarmos (e estudarmos) como homens. Só assim podemos fazer ciência... nas ciências humanas!

Manuel Sérgio


  
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