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A interrogação mais lógica que as ressacas suscitariam aos jovens preocupados com o seu futuro, e à espera de uma resposta, seria: como as parar?
1. Os professores de todo o mundo que leem jornais e veem televisão, com idade suficiente para se lembrarem da polémica jornalística iniciada, em 1994, em torno da qualificação de um movimento estudantil de protesto contra as provas globais e o pagamento de propinas como uma reacção de ‘geração rasca’, logo realisticamente transfigurada em ‘geração à-rasca’, não deixaram certamente de reflectir sobre o recente grande movimento estudantil contra as alterações climáticas desencadeado por uma jovem sueca de 15 anos, chamada Greta Thunberg, que se postou em frente ao Parlamento do seu país durante três semanas, a reclamar do chefe do Governo a implantação de medidas contra a emissão de gases de estufa, fautores do aquecimento global e das alterações climáticas que punham em perigo a vida no planeta. O exemplo da estudante sueca propagou-se por todo o mundo, repetido em milhares de greves escolares, depois por grandes manifestações de adultos, e significativamente em Bruxelas, coração de uma União Europeia que há mais de meio século exalava o hálito do progresso, segurança e prosperidade – hálito aspirado como uma ataraxia medicamentosa contra medos e dúvidas do futuro, sobretudo das novas gerações, que aguardavam um primeiro emprego como início de carreira. Ainda não faziam história sem comparação o violento ciclone Idai e as devastadoras inundações, até aí nunca vistas, que assolaram campos, aldeias e cidades em regiões populosas de Moçambique, Zimbabué e Malawi. Mas já eram conhecidos os efeitos ameaçadores do dióxido de carbono, que obrigavam populações da Índia, China e Japão a usarem máscara para não respirarem a atmosfera envenenada e muitas vezes mortal. Então, nas escolas onde ainda se ensinava um pouco de História e Geografia, os estudantes temerosos do futuro, ouvindo lições sobre o que era importante para vencer na vida (“investigar, inovar e competir”), mal se lembravam de ouvir os avós analfabetos avisar com provérbios que vinham não se sabia donde: “O que a vida ensina não se aprende na escola. Mais vale prevenir que remediar.”
2. Quando já na universidade, e banidas pelo esquecimento as ‘lições’ dos velhos avós que ainda se guiavam pelos ‘conselhos’ dos almanaques comprados nas feiras, os estudantes mais atentos ao que se passava no mundo, ouvindo falar dos acordos climáticos de Estocolmo, Paris ou Kyoto e de grupos económico-financeiros como G-7 e Bilderberg – que auguravam um futuro de riqueza e progresso, com promessas de trabalho, emprego e oportunidades para todos – começaram a interrogar-se para que serviria um curso superior se os cientistas e os governantes não encontravam maneira de evitar que os glaciares derretessem e subisse o nível dos mares; que os tsunamis galgassem as praias e inundassem as terras costeiras; que variações atmosféricas formassem tornados e furacões e arrasassem aldeias e plantações; que fortes chuvadas fizessem extravasar os rios e a corrente arrastasse tudo o que se opusesse à sua passagem; em paralelo, que a falta de chuvas e o calor excessivo secassem campos de cultivo e pastagem e fizessem perigar a alimentação de pessoas e animais; que os incêndios sazonais e no ano inteiro destruíssem, além da biodiversidade, moradias, culturas e pomares, convertendo um território úbere em terra de ninguém. Pois se era verdade que o saber não ocupava lugar, a dúvida quanto aos ditames de climatólogos, filósofos, economistas e líderes políticos pairava sobre os espíritos confrontados com desfechos ocasionais – descaracterização das estações do ano, crises ambientais, económicas e financeiras – como nuvens negras no céu azul ou imprevistos nos pontos de exame.
3. Baixas na produtividade, desemprego, precariedade e desregulação do mercado de trabalho, condicionantes na poupança e no investimento, brechas no apoio das famílias de fraco rendimento aos filhos estudantes ou desempregados – a receita não era igual para todos: os sem-abrigo analfabetos pensavam Valha-me Deus; os ricos instruídos, Carpe Diem; os magnates, Acima de mim, só Deus. Todavia, a geração que se viu à-rasca e hoje enfrenta um período de ressaca, mas leu livros de sociólogos, políticos e poetas, recomendados por professores com elevada cultura, à margem do programa escolar, ainda acredita que o tempo é o espaço onde decorrem as coisas (Santo Agostinho), navegar é preciso (Pessoa), sou homem, nada do que é humano me é estranho (Terêncio), até agora os filósofos têm interpretado o mundo de diversas maneiras, mas o que importa é transformá-lo! (Marx). Sabido que a ressaca é uma consequência das águas tumultuosas que vão e voltam, conhecidos os recursos da inteligência artificial, da robótica e da cibernética, a interrogação mais lógica que as ressacas suscitariam aos jovens preocupados com o seu futuro, e à espera de uma resposta, seria: como as parar? Responda quem sabe, nos colóquios, congressos, comícios e jornadas mundiais da juventude a realizar em todo o mundo.
Leonel Cosme
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