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Pensou no seu pai que a ensinara a gravar. Teria também ensinado a olhar? Talvez, mas, de qualquer jeito, não bastava. Também era preciso ensinar a mostrar. Será que ele sabia?
Daiane acordou bem contente esta manhã, com o despertador do seu telefone celular. Ela o ganhou do seu pai ontem, dia do seu aniversário. Adorou a visita dele e a sua nova condição de possuidora de um celular. Não seria mais exceção na sua sala de aula. Olhou fixamente para o aparelho e pensou em baixar a aplicativo OTT [Onde Tem Tiroteio: https://www.ondetemtiroteio.com.br/]. Tinha ouvido alguns barulhos parecidos com tiros durante a madrugada. Teria sonhado, tido um pesadelo? De qualquer modo, lá do alto da favela (comunidade?), dá pra ouvir muitas coisas. Muita falta de sorte se fosse tiroteio pesado, daqueles que até dão em suspensão de aulas, justo no dia da estreia do seu aparelho meio mágico... Examinou atentamente o celular. Tinha tantos lugares para clicar que assustava um pouco. Ainda mais que ele não tinha vindo com um manual de instruções. Seu pai explicou que a falta de dinheiro o fez comprar um de segunda mão. Não quer pensar muito em como ele chegou às mãos do seu pai. Lembra-se de algo como “no camelô é bem mais barato”... O pai havia ensinado um monte de coisas a respeito do seu uso. Será que dava para se lembrar de todas elas? Se não desse, poderia esperar outras instruções que seriam dadas pelos colegas mais experientes... Enquanto vestia o uniforme, pensou na sua velha ideia: filmar a escola! Não filmar os professores ensinando coisas que estão sendo chamadas de “doutrinação”, dando suas opiniões sobre o governo etc. Queria mostrar a escola com todas as coisas que ela tem: os movimentos das pessoas, os risos, as incertezas, os espaços e os tempos de aula e de recreio. Queria fazer um filme parecido com um ‘documentário’, para espalhar por aí e para guardar ela mesma essas lembranças da escola.
Saber olhar e mostrar. Como fazer o tal documentário? Com seus colegas colaborando, poderia acertar a parte técnica no celular. Mas filmar o quê? Lembrou-se de um texto de um escritor uruguaio chamado Eduardo Galeano, anotadinho no seu caderno: “Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Pai, me ensina a olhar!” [«O livro dos abraços». L&PM, 1991]. Daiane pensou no olhar para fazer filme. Pensou na história de que um documentário não é só mostrar o que há. A professora disse que era sempre uma edição produzida pelo olhar de quem filma. Assim, se dez pessoas documentassem a mesma escola, quantas escolas apareceriam? Como ficaria a escola dela capturada pelo celular? Pensou no seu pai que a ensinara a gravar. Teria também ensinado a olhar? Talvez, mas, de qualquer jeito, não bastava. Também era preciso ensinar a mostrar. Será que ele sabia? Ia filmar a escola sem som, como um velho filme mudo? Ia sair entrevistando as pessoas, caprichando nos sons para exibir no YouTube? Ia conseguir colocar legendas? Como editar depois para não ficar longo demais e para tirar as coisas desinteressantes? Desceu a ladeira com uma grande contradição na cabeça: estava se sentindo superpoderosa e muito insegura. Precisava saber olhar e saber mostrar. Tinha uma câmera nas mãos e algumas ideias meio embaralhadas na cabeça. Finalmente, era a feliz proprietária de um telefone celular. Ele não era novo, mas podia produzir coisas em primeira mão!
Raquel Goulart Barreto
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