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O que aqui se evoca é a necessidade de tornar mais explícita e intencional a capacitação de crianças e jovens – através de estratégias e atividades no dia a dia escolar – para fazerem as melhores escolhas e a tomarem as melhores decisões ao longo da vida.
O acesso à web e às diversas redes que a integram, como a internet e as imensas redes sociais, está generalizado. Quando pensamos nas gerações mais jovens, em particular, fica evidente que a qualidade do uso dessas redes para aceder, escolher e divulgar conteúdos e para interagir é socialmente diferenciada. Retomando conceitos de referência da Sociologia da Educação, essa diferenciação qualitativa depende dos capitais social e cultural de cada um, o que não deixa de constituir mais um influente fator nos seus percursos de vida. A par do enorme aumento dos benefícios da web, aumentam também as suas expressões menos desejáveis: entre outros, coloca os cidadãos face a infinitos conteúdos (informações, notícias, boatos, propaganda, etc), à margem da verdade dos factos, da razão, das evidências da ciência e dos valores fundamentais da dignidade humana. As fake news – que os seus autores designam como pós-verdades ou factos alternativos e que os críticos chamam ‘arte de mentir’ – ocupam cada vez mais espaço nas redes, transformando-se em vagas incontroláveis de mentiras ou ‘in-verdades’ com audiências expressivas que as assumem como verdades. São audiências feitas pelos simpatizantes, convictos dos sujeitos e das ideologias que estão na sua origem, mas são-no também, talvez em maior número, pelos espíritos menos informados e mais manipuláveis. Trata-se de um fenómeno de enorme atualidade que vai dando protagonismo crescente a movimentos sociais e políticos antidemocráticos, com expressões ofensivas e discriminatórias. A propaganda é, desde sempre – com um clímax historicamente recente, durante o nazismo –, um meio de atingir e assegurar o poder, explorando essencialmente as insatisfações, a falta de capacidade de análise da informação, a ignorância e o desejo de ler, ver ou ouvir o que mais corresponde aos desejos e às emoções de cada um. E mesmo face às evidências da ciência, os autores dos discursos ideológica e socialmente manipuladores ignoram ou procuram desacreditar essas evidências, ajustando-os às emoções e desejos das audiências.
Magna competência. Poucos são os conteúdos das redes sociais previamente filtrados quanto à sua validade, fiabilidade e adequação a destinatários específicos. Não existe nas nossas escolas uma pedagogia consolidada, orientada prioritariamente para apoiar os alunos a fazerem escolhas. Por isso, a educação das gerações mais novas ganharia se fosse pedagogicamente mais orientada para melhor as habilitar a filtrar conteúdos que não correspondam à verdade e que ofendam os direitos humanos fundamentais. A capacitação dos utilizadores para o fazer é, seguramente, a componente mais importante da educação para os media. Nessa tarefa, as famílias, a escola e os professores devem estar na linha da frente. É certo que a educação sempre teve como grande finalidade, capacitar os alunos para fazer escolhas e tomar decisões fundamentadas. É uma magna competência, produto da integração complexa da diversidade de saberes, atitudes e competências que capacitam os alunos a progressivamente fazerem as melhores escolhas e a tomarem as melhores decisões ao longo da sua vida. Mas o que aqui se evoca é a necessidade de tornar mais explícita e intencional a promoção desta capacidade, através de estratégias e atividades no dia a dia escolar. Deste modo, as práticas de educação para fazer escolhas permeariam o quotidiano de aprendizagem em contexto de aula, criando situações pedagógicas que levem os alunos a fundamentarem algumas das muitas escolhas na razão, na verdade, nas evidências da ciência e nos princípios fundamentais da dignidade humana. O tema é igualmente importante na formação inicial e contínua de professores e educadores. É também sob a influência da web nas suas diversas expressões (internet, redes sociais, etc.) que eles têm vindo a realizar a sua socialização. E não é seguro que todos façam as suas escolhas nesses espaços de modo informado, criterioso e consciente. Tal suposição e os desafios sempre novos, colocados nas redes sociais, exigem que a sua formação inicial inclua também, de forma intencional e permanente, o desenvolvimento de competências para educarem os seus alunos a fazerem escolhas e tomarem decisões, nomeadamente, e face a conteúdos, desafios e aliciamentos das redes sociais.
Carlos Cardoso
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