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Sem a tomada de consciência crítica sobre o padrão mundial de poder racista, patriarcal e colonial, os oprimidos continuarão a manter dentro de si a violência do opressor. Tornam-se, assim, disseminadores das distintas formas de colonialidade.
A epidemia das fake news desafia-nos a pensar sobre as formas de violência simbólica que estão a originar-se a partir do neocolonialismo virtual. Nesta era pós-advento da internet, temos de refletir sobre novos valores morais e éticos, sobre hierarquias globais de poder e sobre o quão manipuláveis nossas mentes podem ser. Dada a rapidez com que se propagaram, mesmo quem não tem domínio da língua inglesa sabe bem que fake news são notícias falsas. Portanto, são uma mentira em formato de notícia que circula pelas redes sociais, como Facebook e WhatsApp, com objetivos de poder espúrios, sobretudo políticos, e que resultam de atos conscientes e com consequências deliberadas. Vimos isso acontecer, recentemente, em duas campanhas eleitorais manipuladas que impactaram na ascensão da extrema direita nos Estados Unidos e no Brasil. Em contraste a tudo isto, a imparcialidade da notícia é a utopia da verdade que se busca alcançar com o rigor de se ouvir todos os lados sobre o ocorrido, ou seja, sobre o quê, como, onde, quando e porquê. Além disso, o jornalista obedece a um código de ética. Tem responsabilidade sobre a notícia que assina e publica e sabe das implicações de informações erradas ou equivocadas. O seu compromisso é com a notícia, não com a subordinação aos interesses das fontes. Por isso, jornalista que se pauta pela ética profissional não aceita recompensas pela notícia a publicar ou publicada nem deixa que pressões externas interfiram nos artigos de opinião. As fake news não obedecem a nada disso. Caem todas no vão da impunidade, o que nos leva a refletir sobre a colonialidade de poder em que estão envoltas.
Colonialidade de poder é um conceito criado, com alguma salutar polêmica, pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano e utilizado por outros teóricos. De forma breve, o que se quer dizer com a expressão é que a modernidade eurocêntrica, inaugurada com a expansão da Europa Ocidental no início do século XVI, constituiu-se em simultâneo com a sua colonialidade, isto é, através de hierarquias globais de poder e de violência (sobretudo física, mas também simbólica) que asseguraram a hegemonia do mundo eurocêntrico e de um projeto de expansão capitalista, colonial e patriarcal. A partir destes pressupostos, é preciso perceber que as (ir)racionalidades da modernidade não foram extirpadas com o fim do colonialismo histórico. Como tem explicado Boaventura de Sousa Santos, a colonialidade de poder nada mais é do que a “continuação do colonialismo” por outros tipos de colonialismo atualizados ou agravados pelos processos de globalização, a exemplo do racismo, da xenofobia, da islamofobia e da homofobia. As fake news, enquanto nova expressão da colonialidade de poder, traduzem a intolerância a tudo que se enquadra num modelo de sociedade de pluridiversidade epistémica. Por isso, as imagens e os textos adulterados frequentemente incitam o ódio às diferenças. Sem mecanismos legais capazes de prevenir a sua viralização ou de combater os efeitos perversos da sua desinformação, as fake news encontram então vasto espaço de propagação.
Epidemia virtual. O processo eleitoral nas Américas demonstrou a efetividade do seu poder de convencimento, enquanto instrumento ao serviço das forças ultraconservadoras. Mas por que razão as fake news não são percebidas como uma forma atualizada de colonialidade de poder sobre o conhecer (no caso, as notícias) e sobre o pensar? Como nos lembra o educador Paulo Freire, sem a tomada de consciência crítica sobre o padrão mundial de poder racista, patriarcal e colonial, os oprimidos continuarão a manter dentro de si a violência do opressor. Tornam-se, assim, disseminadores das distintas formas de colonialidade. Esta perspetiva, assim interiorizada, leva-nos a concluir que as fake news são uma epidemia virtual não somente porque conseguem passar-se por verdade, mas, sobretudo, porque um significativo número de pessoas se vê representado nas suas formas de violência simbólica, que, como referido por Pierre Bourdieu, induzem à obediência acrítica a padrões e a hierarquias de poder dominante.
Rovênia Amorim Borges
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