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A qualidade da investigação sob a pressão da burocracia

Importa não esquecer que é com a investigação que estamos a desenhar os fundamentos de toda a formação: professores, quadros de empresas, assistentes e educadores sociais, psicólogos, engenheiros, etc.

1. Nada pior do que asfixiar a investigação nas redes da burocracia. São pura e simplesmente incompatíveis. Vem isto a propósito daqueles que são atualmente os parâmetros que constituem critérios de avaliação com vista à concessão de apoios ou reconhecimento de formações, em que tudo passa, sobretudo, pela produção de artigos científicos em revistas com registos tidos como referenciais. Sem contestar a sua importância relativa, importa, todavia, rever com urgência os pressupostos e o impacto do caráter absoluto que tais critérios vão assumindo. Desde logo, porque está longe de ser indiscutível o entendimento sobre a natureza da cientificidade adotado por muitas dessas revistas quando, por exemplo, impõem a verificação através de práticas empíricas dos respetivos enunciados com vista a atestar a assertividade das respetivas conclusões. Ignoram então a diversidade epistemológica das várias vias de pesquisa e subalternizam, no mínimo, a relevância da investigação concetual e o seu perfil mais hermenêutico ou fenomenológico.

2. Decorrem daqui, por um lado, o empobrecimento dos projetos de investigação pela rejeição de muitos deles, e inerente convite à sua subalternação, e, por outro, a entronização do simplismo, disfarçado – e consentido – por fugazes citações ou invocações aparentemente eruditas de vultos como Foucault, Freud, Aristóteles ou outros, as quais apenas servem para nobilitar a exposição junto de um público que se vai tornando, ele próprio, cada vez menos exigente em termos de rigor. Segue-se a ‘revisão da literatura’, que apresenta os resultados da pesquisa bibliográfica considerada pertinente na área e que, pela sua elevada quantidade, acaba por aludir apressadamente ao teor dos trabalhos inventariados, revelando-se algo sufocante e até exibicionista. Acresce, em nome da inovação retórica e de uma certa forma de subordinação ao consumismo, a preocupação obsessiva com o caráter recente desses trabalhos. E esgota-se assim o cabedal teórico dos artigos, pelo menos quanto ao que é exigido...

3. É ainda neste contexto que extensões significativas destes artigos são dedicadas à apresentação de enunciados, nomeadamente de inquéritos, a que se segue a descrição dos correspondentes resultados, por via de regra, atestando as hipóteses colocadas com recurso ao tratamento de dados através dos vários programas informáticos disponíveis para o efeito. Importa depois desenvolver o processo de incremento das citações por terceiros, o que é facilitado pela divulgação dos textos e seus complementos em linha e, inclusive, pela solidariedade entre colegas, situação que, quando ocorre, falseia a realidade do efetivo acolhimento pela comunidade. Entretanto, a tendência é para haver uma desqualificação dos livros, enquanto não obedecem necessariamente aos critérios referidos, sendo que, pela sua extensão – e quantas vezes pela complexidade que encerram – se afastam dos hábitos de fast reading que se vão criando. Ao mesmo tempo, verifica-se a tendência para terem uma duração considerada incompatível com a celeridade da produção inerente à sucessão editorial dos artigos; celeridade que impele à sua publicação massiva, a qual vem a ser incompatível com o ritmo da investigação que aparentemente a suporta. Daí que, igualmente com frequência, acabem por ser variações mais ou menos conseguidas de uma só pesquisa e de uma mesma tese ou problematização.

4. A influência anglo-saxónica destas orientações é evidente. Em Portugal, acrescentou-se o radicalismo com que certos setores e poderes pretendem demonstrar o vanguardismo próprio de mais um dos estrangeirismos que povoam a nossa história. Mas a verdade é que a cópia é, de novo, pior do que o original... Importa não esquecer que é com a investigação – com os seus incentivos, contrariedades, sucessos ou estagnações – que estamos a desenhar os fundamentos de toda a formação: professores, quadros de empresas, assistentes e educadores sociais, psicólogos, engenheiros, etc. É evidente que apenas os que alcançarem, direta ou indiretamente, o acesso a uma investigação científica de excelência – a qual não se compadece com c.v. tecidos por quadros de referência empobrecidos – atingirão os patamares mais elevados e exigentes da atividade científica. Urge, isso sim, evitar os equívocos!

Adalberto Dias de Carvalho


  
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