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O meu relatório anual já só é anual

Já não relatamos, antes enumeramos, ‘carregamos’ bases de dados, disponibilizamos conglomerados de informações já tipificadas para um lócus que dispõe de capacidades de cálculo automático e que nos avaliará em diversas dimensões, asseguram-nos.

O meu relatório anual já só é anual pois há muito tempo que deixou de ser um relatório. Só a periodicidade foi mantida, o seu conteúdo e forma foram profundamente alterados. Continua a ser designado de acordo com a tradição, mas, como vem sucedendo com a maioria dos outrora chamados relatórios de atividade produzidos por professores, incidindo sobre ações desenvolvidas durante um certo período, deixou de ser um documento que relata, de forma estruturada e através de uma narrativa, um conjunto de acontecimentos, processos e realizações, mais as interpretações, análises e destaques produzidos pelo seu autor. Perdeu-se a ‘introdução’ e a ‘conclusão’, por exemplo. De resto, a estrutura não é mais da nossa iniciativa, é-nos dada e revela-se, na maioria das vezes, fixa e imutável.

Ainda seremos autores? Em rigor, já não somos nós que relatamos ou reportamos, é uma plataforma eletrónica que nos “extrai” as informações, de acordo com certos critérios de relevância previamente decididos e através de categorias definidas a priori, assim codificando a realidade vivida, traduzindo-a em factos observáveis e mensuráveis, transformando-os em evidências passíveis de enumeração, medição e comparação.
Em suma, já não relatamos, antes enumeramos, ‘carregamos’ bases de dados, disponibilizamos conglomerados de informações já tipificadas, essas e não outras, para um lócus que dispõe de capacidades de cálculo automático e que, é-nos assegurado, nos avaliará em diversas dimensões.
Ou seja, o dispositivo informático produzirá e emitirá um juízo sobre a nossa atividade, momento a partir do qual tendemos a atribuir uma condição antropomórfica ao ‘sistema’, distante, frio e objetivo, que paira sobre nós, vigilante e capaz de um controlo digital de tipo psicopolítico, como diz Byung-Chul Han, evidenciando necessidades e propósitos, quando não caprichos ridículos, incompatíveis com a nossa dignidade profissional.
Em certos casos, lamentavelmente, tendemos a esquecer que participamos, diretamente ou através de representação, no processo de decisão de regras e critérios, ou que simplesmente aquiescemos. Casos há, porém, em que os processos assumem uma natureza heterónoma, visando o enquadramento das experiências profissionais e a sua alta administração e controlo.

Upgrading contínuo. Em qualquer caso, o processo é prático, fiável e objetivo, de todos conhecido com antecedência, passível de fácil mensuração, comparação e hierarquização, reduzindo a subjetividade inerente a todos os processos de avaliação. Os campos estão bem definidos, só admitem a inscrição de certos dados e até podem impor um número máximo de caracteres, rejeitando a gravação dos excedentes. A nossa experiência com plataformas é cada vez maior, dos concursos de professores à declaração de IRS, passando pela submissão de projetos de investigação e outros a agências de financiamento.
A gestão de cada disciplina que lecionamos é outro exemplo: programas, objetivos, resultados de aprendizagem, sumários, faltas, materiais pedagógicos, avaliações dos alunos, etc. Tudo desmaterializado, o que, para muitos, significa o mesmo que desburocratizado – conclusão precipitada e ingénua, uma vez que a racionalização e a formalização, típicas da burocracia enquanto apogeu da racionalidade formal, foi, pelo contrário, altamente intensificada.
A emergência de uma hiperburocracia é mais plausível combinando processos de controlo extensivo de grandes populações e processos intensivos e individualizados que visam a melhoria pessoal, a socialização dos profissionais numa distinta carta de valores onde avultam a performatividade competitiva e a emulação das ‘melhores práticas’.
A acusação frequente de que esta nova avaliação hiperburocrática é puramente baseada em números orientados para a competição – e que, por isso, recusa propósitos de autoformação – é duvidosa. Do que se trata é mesmo da formação de um novo profissional empreendedor, em upgrading contínuo, em busca da sua otimização pessoal.

Licínio C. Lima


  
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