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1. Em suas incursões epistolares, certa feita, Guimarães Rosa escreveu: “Ando com fome de coisas sólidas e com ânsia de viver só o essencial. Leia o «Time Must Have a Stop», de Aldous Huxley. Pessoalmente, penso que chega um momento na vida da gente em que o único dever é lutar ferozmente para introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de eternidade”. O autor de «Grande Sertão: Veredas» sabia das coisas, e por isso anteviu a senda desafiante contida em tal propósito: “Para muita coisa importante falta nome”, afirmou ele. O enigma e o desafio do tempo, é disso que se trata. ‘Alles nahe werde fern’, dito num certo tom do romantismo goetheano, para notar o crepúsculo do cessar da tarde, mas que, para Jorge Luis Borges, bem pode referir-se à própria vida, à finitude da qual nos aproximamos quando avançamos nos anos, ou ainda pode significar as perdas que a vida nos impõe ao longo dos tempos. Também a rotina, que inibe a coragem para tomar decisões e atrofia o gosto por viver, é um anoitecer da estadia humana no mundo. Inquire-se a temporalidade, busca-se conforto nela, que tanto pode aquiescer como negar acolhimento. São as ‘vozes do tempo’, como assinalou Julius Thomas Fraser. Enigmáticas e porta-vozes de surpresas várias, que, muitas vezes, não tomam sequer conhecimento das categorizações científicas que delas se tenta fazer. Por exemplo, o símbolo “t” dos físicos é falaciosamente simples como representação do que se entende por tempo. Repisando Fraser, podemos dizer que é útil em expressões formais, e o seu significado não precisa ser questionado. Contudo, se perguntarmos de que modo se supõe que esteja relacionado com o que todos nós conhecemos, no íntimo, como nossa existência no tempo, seremos enviados à Psicologia. Esta, ao lidar com ‘processos mentais’, quase nada tem a dizer sobre o símbolo “t” dos físicos.
2. Buscando algo comum ao tempo dos psicólogos e dos físicos, poderíamos ainda indagar sobre o que a Psicologia tem a falar acerca de como ‘nosso sentimento de devir contínuo’ se relaciona com o ‘devir contínuo do mundo físico’, incluindo as questões cruciais do início e do fim do tempo individual, isto é, da existência. O que está em causa, existencialmente, diz respeito às relações entre o sentimento de duração, a dinâmica da natureza e o tempo concreto que cada um terá. É uma hipótese plausível considerar que a noção de espaço tenha sido percebida pelo ser humano antes da de tempo. Com razão, a historiografia de Ciro Flamarion Cardoso foi reiterativa a esse respeito. Os idiomas mais antigos que nos deixaram documentos, como o sumério e o egípcio, tendiam a espacializar o tempo. O egípcio demorou até mesmo a desenvolver um sistema verbal baseado na ideia de tempo, dado que, em princípio, predominava a noção de ‘aspecto verbal’ que distinguia o perfectivo (ações completas), o imperfectivo (ações em ato ou ações reiteradas) e o prospectivo (ações suscetíveis de ocorrer). Ainda hoje, em Português, utilizamos um vocabulário espacial para qualificar o tempo: curto ou longo. Assim, costumamos usar expressões, sobretudo no Português transatlântico, como: ‘um curto espaço de tempo’, ‘ficou para trás’, ‘está a grande distância no tempo’, etc. Regressemos ao princípio, o essencial sublinhado por Guimarães Rosa. O ‘máximo de eternidade’ parece se encontrar naquilo que dissolve as fronteiras entre o tempo e o espaço, tornando-os uno. O facto, por exemplo, que ocorreu há muito tempo, mas que é transposto e lembrado no presente, com os detalhes do lugar (espaço) em que aconteceu. Eternizado. Como Guimarães Rosa, também ao realçar o sertão, o poeta João Cabral de Melo Neto, tendente ao uso da estética surrealista, falou de uma educação em busca do cerne, a partir de uma pedra: Uma educação pela pedra: por lições/ Para aprender da pedra, frequentá-la/ Ao que flui e a fluir/ A de poética, sua carnadura concreta/ Uma pedra de nascença, entranha a alma. Talvez a dialética de uma educação pela pedra cintile a senda da introdução do máximo de eternidade no tempo de cada dia.
Ivonaldo Leite
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