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Tarefa complexa a dos professores

Espera-se que a escola e seus professores participem do esforço de cada aluno para identificar, compreender, construir elos entre sua comunidade, a sociedade nacional e a internacional. Diferente do que muitas vezes ocorre, fazerem tentativas de uniformização de jeitos de pensar, conduzir a vida, construir cidadania.

1. Ainda muito assustada com a agressão de jovens, ex-alunos de escola, em cidade do interior de São Paulo, a estudantes, professores, servidores, atentando contra suas vidas ou tirando-as, acabando com seu próprio existir, deparo-me com a informação de que, no antigo Egito, por volta de 3100 a.C., em cada cidade havia uma “casa da vida”, lugar de aprendizagens e de estudos que corresponderia ao que, hoje, designamos como escola. Ali, entre outras dependências, se encontravam, a casa dos livros, laboratórios, observatório, bem como outros espaços concebidos para aprendizagens, estudos, criações, portanto, para a produção de conhecimentos.
Em organizações criadas, ao longo dos tempos, por diferentes sociedades, a fim de produzir, transmitir conhecimentos, empenho é feito pelos mais experientes, os professores, para dar acesso a compreensão de situações, pensamentos, experiências de vida distintas, interpretar textos, sejam eles tecidos em escritos ou em vivências. Dizendo de outra maneira, estudar resulta de ações de ensinar e aprender, no convívio entre pessoas mais e menos experientes, a fim de decifrar contextos em que conhecimentos são produzidos, e, assim, ir se capacitando para criar novos conhecimentos. Estudar, aprender, é fruto de interação entre pessoas, suas ideias, ideais, projetos para a sociedade.

2. Aprender exige esforço, que em determinadas circunstâncias pode se confundir com sofrimento. Exige paciência para superar dificuldades, a fim de entender, interpretar conteúdos, idéias, proposições que só tomam sentido quando encaradas a partir de relações construídas no dia a dia, no seio da família, nas relações com parentes, vizinhos, amigos, colegas e professores. Exige esforço para superar sofrimentos causados por não se sentir aceito, reconhecido, em virtude de não corresponder a ideal de estudante, de ser humano, construído por pessoas distantes de realidades vividas fora dos estabelecimentos de ensino.
Muitas vezes, nas escolas se propõe um modelo de sociedade que exclui certas comunidades de destino, por exemplo, a dos afrodescendentes, dos ciganos, dos povos originários das Américas, de surdos-mudos, de deficientes físicos, de homosexuais, lésbicas, travestis. Dessa forma, é gerado sofrimento diante do fato de não se corresponder a expectativas de quem ensina, ou até mesmo de si próprio. Estudar é um processo que implica relações entre pessoas, com textos, imagens, contextos. Na verdade, se começa aprender a estudar bem antes de ingressar em estabelecimentos de ensino. Como bem sublinhava senhor Euclides Amaral, um octogenário, a vida é uma escola, a melhor de todas, talvez.

3. Na perspectiva de culturas africanas e afrodescendentes, mundo a fora, antes de se educar, o que resulta de experiências em escolas, cada pessoa aprende com a família, os parentes, os amigos, os vizinhos, a se edificar a si próprio. Assim, cada um, ao longo da vida, é responsável por ir se tornando uma pessoa, ao encontrar o seu lugar na sociedade, sem nunca deixar de fortalecer a(s) comunidade(s) de que faz parte. Dessa forma, cada pessoa vai aprendendo a pôr sentido nas palavras que ouve e lê, também nas que pronuncia e escreve, bem como nos gestos que lhes são dirigidos e, também, é claro, nos que constrói e transmite.
Assim, espera-se que a escola e seus professores participem do esforço de cada aluno para identificar, compreender, construir elos entre sua comunidade, a sociedade nacional, também a internacional. Diferente do que muitas vezes ocorre, ao se fazerem, na educação escolar, tentativas de uniformização de jeitos de pensar, conduzir a vida, construir cidadania. Tarefa complexa a de professores: pôr em diálogo culturas, incentivar tanto a aquisição como a produção de conhecimentos, garantir que a educação escolar não promova desenraizamento de modos de ser e de viver construídos no seio das famílias, no convívio das comunidades originárias.
Certamente, este é um esforço que precisa ser compartilhado entre professores e escolas, comunidades de onde são oriundos os estudantes, bem como o sistema nacional de educação. Nesse sentido, o Conselho Nacional de Educação, ao orientar para educação das relações étnico-raciais, salienta que, numa sociedade hierárquica e desigual como a brasileira, “é preciso valorizar, divulgar e respeitar os processos históricos de resistência de comunidades, valorizar, divulgar processos históricos de lutas, combater desqualificações que sugerem incapacidade, ridicularizam traços físicos, culturais; propor, discutir, construir um projeto de sociedade em que todos se vejam incluídos e, por isso, igualmente valorizados, nas suas diferenças”.

Petronilha B. G. Silva


  
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