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Sophia, Antígona, Catarina Eufémia, Creonte e Carrajola são nomes que gostaríamos que viesses a conhecer na Escola, por tudo o que esses nomes significam e poderão suscitar. É que não queremos uma Escola que te endoutrine.
Há quase três anos escrevemos uma carta como esta para um menino que, hoje, já te chama mana e, algumas vezes, Guina. Com ele e connosco partilharás uma parte da tua vida, em que crescerás e te afirmarás como pessoa e como mulher, o que nem sempre é uma tarefa fácil. Mesmo assim, tudo faremos para que possas viver plenamente os dias em que estivermos juntos, adivinhando os teus olhares, construindo as palavras contigo ou amparando-te, enquanto necessitares de nós, no início das caminhadas pelas estradas que tiveres de percorrer. Sabemos que nem todas as meninas, e meninos, que nascerem em 2019 terão as mesmas oportunidades que tu vais ter, esperando nós, por isso, que, como escrevia Sophia, a propósito de uma outra Catarina, também Antígona pouse a sua mão sobre o teu ombro e que os Creontes e os Carrajolas de todos os tempos sejam apenas teus adversários e não se transformem em teus carrascos nem nos de mais ninguém. Sophia, Antígona, Catarina Eufémia, Creonte e Carrajola são nomes que gostaríamos que viesses a conhecer na Escola, por tudo o que esses nomes significam e poderão suscitar. É que não queremos uma Escola que te endoutrine.
Por outra Escola possível. Essa, a Escola da catequese cultural e cívica, é a que, de um modo geral, já existe; uma Escola que vai perdendo o fulgor, a legitimidade e o sentido à medida que o tempo passa, mesmo que os seus alunos consigam melhores resultados nas provas de avaliação, nos exames e nos testes internacionais ou que os números do abandono escolar tendam a diminuir. É uma Escola da qual não precisamos e que muito menos desejamos, tanto para ti como para qualquer menina ou menino que aí têm de viver uma parte muito significativa das suas vidas. É que uma tal Escola não explora e estimula as potencialidades intelectuais dos seus alunos nem, concomitantemente, se afirma como espaço relacional eticamente mais exigente e cosmopolita. É um espaço demasiadas vezes desprovido de significado cultural, o que não significa que, para alguns desses alunos, seja um espaço destituído de sentido. Por isso é que temos vindo a trabalhar para que uma outra Escola seja possível, uma Escola mais congruente com os valores e os princípios da vida que se esperaria que usufruíssemos em sociedades que se afirmam como democráticas, de forma a que todos, sem exceção, possam beneficiar do legado de conhecimentos e de experiências que, hoje, se encontram ao nosso dispor. Sabemos que a Escola não pode ser responsabilizada pela miséria do mundo nem, só por si, pela erradicação dessa miséria, ainda que não possa ser desresponsabilizada, também, pelo modo como cria ou não cria oportunidades para a combater. Não sendo este um empreendimento fácil de consolidar é um empreendimento tão necessário para ti como para qualquer outra criança, de forma a que ler, escrever, calcular, solucionar, investigar, cooperar, debater, pintar, cantar ou jogar sejam atos culturalmente significativos, autênticos e plausíveis e não simulacros que se vivem para justificar, sobretudo, as notas dos testes e dos exames.
Desejar o fruto inteiro. Já deves ter compreendido que nasces num tempo marcado por múltiplos desassossegos, que, mais do que problemas, terão de ser encarados como desafios a enfrentar e a resolver. Um tempo onde há mulheres que são espancadas, violentadas e assassinadas apenas porque quiseram, e querem, afirmar o direito de usufruírem da sua vez e da sua voz. Direito que lhes sendo negado, algumas vezes sob a complacência dos tribunais, corresponde, mesmo assim e apesar de tudo, a mais uma vitória na luta contra a barbárie, até ao dia em que uma tal violência passe a ser, somente, uma recordação dolorosa de um passado cada vez mais longínquo. Por isso é que, apesar de todas as inquietações que temos vindo a revelar, te aguardamos com o mesmo tipo de esperança com que aguardamos tua mãe, o teu tio, os teus primos ou, há bem pouco tempo, o teu irmão. Também eles nos entraram pela casa adentro, obrigando-nos a aprender a partilhar espaços e afetos, a reconstruir as nossas vidas e as nossas cumplicidades, a redefinir as nossas prioridades ou a olhar para o mundo de forma menos diletante. O que recebemos deles, e o que vamos receber de ti, obrigou-nos, e vai obrigar-nos mais uma vez, a redescobrirmo-nos, a reencantarmo-nos com a vida, a sermos mais atentos com o que acontece à nossa volta, a tornarmo-nos interlocutores mais cuidadosos e capazes e, por fim, a não desistirmos de pugnar por um mundo mais decente. Sê bem-vinda, Catarina! Vamos olhar embevecidos para o teu primeiro banho. Vamos aprender a ler o teu choro. Vamos tirar fotos que deem e sobrem para que uma das tuas avós possa encher a sua página de Facebook. Vamos estar atentos ao comportamento do teu irmão, porque, um dia destes, vais deixar de ser, apenas, uma barriga de mãe mais proeminente do que o habitual. Vamos esperar que durmas sossegada à noite. Vamos comemorar tudo o que há para comemorar, seja o teu primeiro sorriso, o teu primeiro mês, o teu primeiro dente e todas as primeiras coisas que, entretanto, forem acontecendo. Cá te esperamos, Catarina, com um conselho de mais um poeta, Miguel Torga, que te lembra, e nos lembra, a necessidade de a liberdade guiar os teus passos – sem descansar, porque de nenhum fruto se pode querer só a metade.
Ariana Cosme e Rui Trindade
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