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Não ousemos desviar dele o olhar, nem dele nem de todas as criaturas que são o segredo da nossa própria existência. E se a nossa vontade for pouca, haja quem nos dê a mão, pelo exemplo da sua fragilidade, da sua inocência.
Quando Greta Thunberg falou no Fórum Económico Mundial, fê-lo sem ter de dividir o espaço com muitos “líderes” preocupados com a sua vida doméstica, como sejam a da China, dos EUA, da Grã-Bretanha ou da França. Outros mais terão sido acometidos por uma comichão que em nada se pode comparar com os efeitos nocivos do glifosato ou da queima de carvão sobre o habitat da Amazónia. Tenho um feeling de que ela sabia ao que tinha sido convidada, mas a sua inteligência adolescente logrou fazer do presente envenenado uma oportunidade para levantar a voz além do fausto e fazê-la chegar a todos aqueles que, com ela, não viraram costas ao sonho: os herdeiros do rio que possa continuar a ser transparente. Será desta geração que a memória fica pelos motivos óbvios. Foi a casa onde puderam nascer, em todo o seu esplendor de fertilidade, de diversidade étnica, de construção da obra que a inteligência humana colocou ao serviço do bem comum, este recanto do universo onde se fez o milagre da vida selvagem e da habitação humana, suficiente, na evidência da sua inigualável partilha, para num momento da sua doença cativar os herdeiros que não abdicam de a curar.
Não é obra para amanhã, é imperativo de hoje, aqui, entre todos a quem a dedicação a um dos maiores desafios de sempre possa unir. Uma sociedade que tem pudor em aprender com os mais jovens estagna, não tem memória, compromete-se no seu declínio. Haverá de ser feito um acto de contrição por parte de pais e professores, já que a elite política se demite do poder que a caracteriza, mas insiste no papel de Judas Iscariotes, de serpente do Jardim do Éden, acometida de autismo, servil de um determinismo pouco lúcido. Não serão demais as ideias que os ideais possam fazer germinar, nem o engenho para as concretizar, neste tempo em que por fim há quem ouça o aviso do sino, dos ventos e das marés, do fogo que um dia soubemos dominar e que, agora, nos ameaça. O que não é eterno, por definição, pode ser eternizado. O que é imperfeito, por culpa própria, pode ser aperfeiçoado. O que não tem solução, por arte do nosso esforço, pode ser resolvido.
Há um guarda-rios que espera pela bonança, que no fim da tarde esvoaça sobre nós e pede para lhe protegermos o ninho, e leva na asa o sinal da sua liberdade e no bico a semente da sua prole. Não ousemos desviar dele o olhar, nem dele nem de todas as criaturas que são o segredo da nossa própria existência. E, se a nossa vontade for pouca, haja quem nos dê a mão, pelo exemplo da sua fragilidade, da sua inocência, levados a cuidar dos homens e mulheres cujas terras são afinal de todos. Não pode haver céus cinzentos em dias de sol, nem águas turvas nas nascentes, nem vendavais sobre os tectos de colmo. Não é em Davos que moram aborígenes, esquimós, berberes, guaranis ou papuas, é aqui ao lado da Europa, aqui bem junto onde se desbarata a civilização e despeja o lixo no coração de África. O sonho é filho da razão, a razão que muda a realidade por inspiração daqueles que têm a coragem de sonhar. O tempo é o mais isento juiz, sabemo-lo agora que o não devemos desperdiçar. Obrigado a todos os guarda-rios e ao que eles representam de esperança.
Luís Vendeirinho
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