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Crónica de uma profissão mal amada

Queria ser educadora de infância da rede pública [esta] afigurava-se-lhe como mais justa e menos segregadora.

O calendário marcava o mês de Julho do ano de 1989. O ambiente era de festa, de orgulho e de expectativa. Ana, contente com o trabalho que havia desenvolvido ao longo dos três anos de formação, pensava no dia em que iria exercer funções como educadora de infância.
Tinha já antecipadamente feito algumas opções queria ser educadora de infância da rede pública. Sabia que os caminhos poderiam ser sinuosos, mas estava decidida. A rede pública afigurava-se-lhe como mais justa e menos segregadora.
A sua 1ª colocação foi a umas milhas da sua terra. O receio da distância que os tenros 20 anos haviam de suportar era sustentado pelo entusiasmo que demostra alguém que procura o que deseja e aquilo em que acredita. Estava disposta a conquistar aquele lugar e outros mais.
Durante o período de formação havia compreendido que novos e auspiciosos ventos se anunciavam para a educação de infância. Esta consciência vinha-lhe do facto de em 1986 se ter consagrado a formação de educadores de infância a nível superior.
Logo no seu 1º ano de trabalho assiste à promulgação do ECD, que veio consagrar a igualdade de direito e deveres entre todos os profissionais independentemente do nível de ensino, integrando-os numa carreira única.
Quase sem dar por isso, de inverno para inverno, de terra para terra, de conquista em conquista, sentia crescer em si um enorme orgulho na profissão que desempenhava e uma enorme vontade de contribuir para o reconhecimento social da mesma.
Estava consciente de que o lugar da educação de infância, exigia de todos um esforço, e tantas vezes a coragem de romper com estereótipos do passado e ideias dominantes, que a impedissem de avançar pelos caminhos que a evolução e a investigação consideravam como mais apropriados.
Confiava no entanto que tudo era irreversível. Em 1997 aplaude a promulgação da Lei 5/97, bem como a obrigatoriedade do grau de licenciatura para educadores de infância.
Toda a sua vida profissional foi feita de lutas, de conquistas e também de angustias. Experimentou o isolamento profissional e compreendeu as diferenças que se acentuam entre o meio urbano e o meio rural, onde a identidade cultural se confronta com políticas educativas elitistas.
Percebeu uma nova função na profissão assente no poder transformador que o envolvimento com o meio pode trazer para a comunidade. Alicerçou a sua prática pedagógica numa acção comunitária. Reconheceu o saber dos homens rudes de dureza quase impenetrável e quis conhecer os seus conhecimentos, meio científicos, meio camponeses, essa mistura de estreitos preconceitos e de velha sabedoria que caracteriza o mundo rural.
Mas um dia, o rádio anunciava a tomada de decisão do ME sobre a diferença do calendário escolar para a educação pré-escolar, justificando esta opção pelas necessidades que as famílias apresentam em termos laborais.
Ana sentiu uma atordoada embriaguez, um desfalecimento das pálpebras... Não era por si que temia mas pelas crianças, pelas famílias, e sobretudo pelo modelo de sociedade que esta ideia veiculava.
Reflectiu naquele momento sobre o erro que cometera ao supor que tudo é irreversível, revisitou o seu passado lembrando os extravagantes sonhos de outrora, que agora a apavoravam, por perceber a sua fraca sustentabilidade.
As vitórias estavam misturadas e confundidas com as derrotas. Percebeu que as intenções legislativas nunca haviam sido claras e que existia uma enorme desproporção entre a rede pública e a rede solidária; que a falta de investimento na rede pública da ed. pré-escolar, se refugiava no subtil conceito de rede nacional; que o ECD que consagrou a carreira única colocou indivíduos do mesmo grupo profissional em situação diferenciada; que o reconhecimento do grau de licenciatura veio aumentar o fosso entre os profissionais da rede pública e da rede solidária, em termos salariais e de categoria profissional.
Pouco tempo depois do rude golpe, que deitou por terra alguns dos seu sonhos, é promulgado o despacho conjunto 66/2004 de 9 de Fevereiro. Depois de o ler, sentiu-se capaz de definir o seu pensamento. Percebeu que alguns mandantes orientados por ideais economicistas não aceitavam discutir a partir de outras premissas que não fossem as suas. E havia (há) tão bons ideais. Compreende que apesar de nada no texto se revelar como indiciador de más intenções, algo de estranho poderá estar para acontecer. Faz um esforço reflexivo maior e cruza a recente proposta do Governo para a LBSE, no que respeita à EI (não assumida como a 1º etapa da educação básica e onde fica expressa unicamente a função socializadora), com a seguinte frase do referido despacho ?entendem os Ministérios das Finanças, da Educação e da Segurança Social e do Trabalho justificar-se, nesta fase uma reflexão conjunta sobre o melhor modo de reorganizar e repensar em termos de desenvolvimento do Programa de Educação Pré-Escolar e respectiva tutela?.
Receia Ana que os seus pensamentos furibundos se exprimam com uma subtileza fustigante na morte da rede pública da educação pré-escolar. Não suportava a ideia de ter que aceitar a vitória da ignorância. Entendia que a ignorância expressa em discursos beatos e em acordos ministeriais conferiam aos políticos uma espécie de restrita inocência. Mas tornava-se difícil para os que tudo fizeram em prol da rede pública comover-se com todas as boas intenções anunciadas.
Parecia que a autoridade e o poder despojara essas ingénuas criaturas de toda a sensibilidade humana, de tudo o que apesar de ter um preço económico, não consegue pagar-se em termos de cidadania e de direito de opção.
As expectativas de Ana em relação ao futuro são grandes. É daquelas mulheres e profissionais a quem a injustiça em lugar de a entristecer, lhe cria um novo e redobrado gosto pela vida e pela profissão.
Assume o direito à indignação e promete lutar pela reposição da verdade, da igualdade e do reconhecimento social que a profissão de educadores de infância no âmbito da docência tão legitimamente merece.


  
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Edição:

N.º 133
Ano 13, Abril 2004

Autoria:

Cristina Mesquita Pires
Escola Superior de Educação de Bragança
Cristina Mesquita Pires
Escola Superior de Educação de Bragança

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