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A Criança Órfã no Texto Proverbial Moçambicano

Se faltares mãe tua [se faltar a tua mãe], mamas teta de cão, dizendo "É mãe".
[Watua mayo, onomwa nibele na mwanabwa, wiraga "Di m'ma".]
(provérbio chuabo, Festi, 1980:192)

A apetência pela literatura de tradição oral, nomeadamente moçambicana, poder--se-á justificar através de um provérbio chuabo: "Lembrar coisa antiga, ver nova." [Wubusa yawale, wona eswa.] (Chuabo, Festi, 1980:196).
De que o provérbio é um texto complexo, ninguém o duvida  "O provérbio não passa despercebido no adulto, mas sim na criança (tradução à letra: provérbio não passa entre as pernas mulher, despercebido, passa da criança)." [Musibe kunvira munyogani mwa muyele.] (Lomué, Festi, s. d.:[47]);  e, porque "Não se pode falar tudo o que há para dizer (de uma só vez)." [Olávula khonamalihiwa mwànó.] (Macua, Matos, 1982:262), "falar-se-á" só um pouco do muito que há para dizer.
Compulsámos um conjunto de aproximadamente 6.500 provérbios, metade dos quais inédita ? a título de exemplo, Angola possui um total aproximado de 11000 provérbios editados em revistas e livros ? de que seleccionámos 350, onde figura a temática da criança.
Que seja do nosso conhecimento não existem edições representativas de provérbios cobrindo todo o território moçambicano, com excepção de pequenas colectâneas abarcando alguns dos povos e/ou províncias: Aires Ali (1993), Júlio Ribeiro e Brentari (1971) e Teresa Manjate (1994). A maior colecção (Junod & Jaques, 1986), bilíngue (Xitsonga e Inglês), de provérbios (1.201) é do sul de Moçambique, e está a pedir uma tradução para Português e outras línguas moçambicanas.
Se os provérbios são "a sabedoria das Nações", Moçambique ? diríamos o mesmo de Angola de que desconhecemos, também, a existência de qualquer colectânea nacional de provérbios ? só beneficiará com a publicação do acervo proverbial de todo o país, respeitando, na medida do possível, as idiossincrasias das diversas comunidades linguísticas. Deste modo, facilitar-se-ia a sua circulação por todo o território, nos diversos canais: "boca a ouvido"; "letra a olho"; oral e escrito. De facto, o uso é a única razão de ser do texto proverbial e condição sine qua non de sobrevivência individual, prima facie, e colectiva/anónima, secunda facie ( o verso e o reverso da medalha, e do provérbio). Vejam-se os trabalhos de Vail e White (apud Penvenne, 1992:14), autores que "começam por desestruturar os conhecimentos académicos sobre literatura oral e a questionar a ideia de que a cultura oral é baseada em fórmulas e limitada por padrões comunitários e não individuais. Eles argumentam e tentam demonstrar através da colecção de ensaios que a alegada figura do 'Homem real' é uma criação académica. Pelo contrário, argumentam [que] a história e cultura orais são enormemente criativas, vivas, engraçadas e rigorosas. Sugerem que a razão por que se considera a oralidade baseada em fórmulas reside no seu distanciamento em relação à maioria dos académicos."
O carácter dialógico-proxémico do uso dos provérbios, nalgumas zonas africanas, é atestado por um provérbio nhaneca-humbe de Angola: "Os provérbios que para acolá se afastaram têm de executar o passo de volta." (Silva, 1992:291) . Tal facto é corroborado, também, em Quelimane (Moçambique), onde alguns interlocutores, falantes de Echwabo se saúdam matinalmente, cantando cada um a sua parte ("hemistíquio") dum provérbio!...
Constituirá um dever dar a conhecer este acervo proverbial, aberto e fechado, às comunidades linguísticas, aos grandes centros de difusão cultural, como as escolas, e aos especialistas da escrita, designadamente escritores, jornalistas e locutores que facilmente porão à disposição da população um património que é sua pertença de pleno direito. A título de exemplo, atente-se à utilização do texto proverbial, por Ungulani ba ka khosa, em Ulalapi e Orgia de Loucos, por Paulina Chiziane, em Ventos de Apocalipse, por Mia Couto, nomeadamente em Terra Sonâmbula, e por Craveirinha, no "Fabulário de Karingana ua Karingana". (veja-se Matusse, 1998:133-136).
O texto proverbial no seu sentido mais lato, ? abrangendo antigas e novas designações, algumas delas já em desuso ? engloba adágio, anexim, axioma, brocardo, conceito, prolóquio, regra, refrão, rifão, sentença, verso, vesso, verbão, verbo, berbão, apodo, juízo, conselho, ensinamento, proposição, dito, dito popular, dito sentencioso, ditado, ditado popular, ditame, ditério, frase feita, tópico, lugar comum, dizer comum, parémia, gnoma. (a propósito das designações pelas quais o provérbio, na Península Ibérica é conhecido , leia-se Carolina Vasconcelos (1986:37-41).
Os provérbios são "[...] considerados veículos de uma experiência e de um saber colectivos, onde se plasmam as representações simbólicas, as verdades socioculturais e as normas de conduta que alicerçam a vida da comunidade. Anónimos por definição, os provérbios diferenciam-se dos aforismos, apotegmas e máximas, textos que possuem sempre um autor reconhecido." (Cristina Macário Lopes, 1992:9-10)
O lexema criança (grosso modo, (n)mwana, na maioria das línguas bantas moçambicanas e, até, angolanas: muana, mona) designará o ser humano ou animal (antropomorfizado), traduzido em Português por criança (:"A iniciação é o verdadeiro nascimento da criança" [Weneliwa oyarayara mwana] (provérbio macua, Martinez, 1989:110), pequeno, menino, miúdo e filho, desde que dependente.
Não subsiste qualquer dúvida, no corpus por nós compulsado, de que as crianças e, por extensão, os filhos, representam uma mais-valia de sobrevivência post-mortem : "O genitor não morre, muda de pele, i. e., continua nos filhos." [Mambali kankwa, onohuwa] (Chuabo, in Valer; Festi, 1995:138) e de valor económico-social: "Gerar é riqueza." [Obala muhaku.] (Lomué, Festi, s. d.:[65]; Chuabo, Festi, 1980:137); "O curral dos bois não é forte se não houver um curral de bezerros." [Xibala xa tihomu a xi tiyi loko ku nga ri na xibala xa marhole.] (Changana, Ribeiro, 1989:123).
Por isso, nos provérbios, se apela a um grande investimento educacional que combine dureza  "Coisa (encontrada sem esforço) apanhada não educa o filho." [Yoddodda kinimulela mwana.] (Chuabo, Festi, 1980:201); "Pedagogo, educando, não é mole." [Namugu agalaga kanvureya (kanagureya).] (Chuabo, Festi, 1980:123)  com uma dose de auto-aprendizagem, correcção atempada e "prodigalidade  "Se a criança quiser um osso, deixa-o com ele, amanhã verá por si só." [Agawadela nigogoddo mmuttiyena mangwana onona yekha.] (Lomué, Brentari, s. d.:1); "Abre a mão, a fim de que as crianças se habituem a ti." [Tapula m'madani, aima awulemele.] (Chuabo, Valer; Festi, 1995:310); "Endireita-se a árvore enquanto é pequena." [A nsinya va wu wolola na wu ri wutsongo.] (Changana, Ribeiro, 1989:8)  fazendo apelo às virtudes mais valorizadas numa sociedade tradicional (só nesta sociedade?!), como a obediência  "A obediência é o tesouro dos filhos." [Ku yingisa i ndzalama ya vana.] (Changana, Ribeiro, 1989:37); "A criança desobediente queimou as mãos, i. é, o filho cabeçudo sofre as consequências." [Mwana wohileleya ozwa m'madani.] (Chuabo, Valer; Festi, 1995:391)  a submissão e a humildade: "Filho insubordinado falecidos tapam-lhe (os olhos)." [Mwana owalamuwa azimu anomukunela.] (Chuabo, Festi, 1987:60); "Filho insolente é castigado pela terra." [Mwana woalamuwa onlagiwa elabo.] (Chuabo, Festi, 1987:60; 1980:113); "O filho rebelde é repreendido pelo mundo (vida)." [Mwana owalamuwa onlagiwa elabo.] (Lomué, Festi, s. d.:[54]).
Uma primeira análise dos 350 provérbios moçambicanos, nos quais a criança figura, permitiu-nos reparti-los por diferentes "áreas temáticas" avulsas, como educação, características (positivas e negativas), "cuidados a prestar", relações materno-infantis, direitos/deveres, gémeos, hereditariedade, relação velhos-novos, orfandade, morte/doença, gestação/parto, pertença, poder/fragilidade, proveito/inutilidade.
A nossa escolha incidiu, por isso, sobre a temática da orfandade, porque mais consentânea com o País, onde continuam a aflorar em cada esquina os "filhos de ninguém", filhos da guerra, filhos da rua (vejam-se as diversas e nunca suficientes obras de apoio à criança de rua, bem como os estudos referentes à mesma, nomeadamente Lucena Muianga & Alexandrino José, 1996).
Optámos por delinear, se bem que de modo sucinto, a "representação social" da criança órfã, fazendo nossas as palavras de Pierre Mannoni (1998:119): "Do ponto de vista epistemológico, não se coloca o problema de saber em que medida uma representação é verdadeira ou falsa, nem que relação este conhecimento mantém com a verdade. Com efeito, uma representação pelo facto de ser uma representação é necessariamente 'falsa', porque ela nunca diz do objecto aquilo que ele é exactamente, e, ao mesmo tempo, ela é 'verdadeira', [a representação, claro], na medida em que constitui para o sujeito um tipo de conhecimento válido do qual pode extrair o princípio regulador dos seus actos."
Órfã será a criança que não usufrui de um ou de vários progenitores, por morte, separação, abandono ou perdimento; e, também, a criança abandonada, enteada, adoptada, "ilegítima".

(continua)

Obras citadas

  • ALI, Aires (1993). Recolha e contextualizações de canções, lendas , histórias, contos e provérbios para crianças nas províncias de Niassa, Nampula e Manica, texto em fotocópia. Maputo?: UNICEF/Projecto de Educação para a Paz.
  • FESTI, Lodovico M. (1987) . Njai Nali Mulima. Fragmentos de literatura oral etxuabo. Quelimane: edição do autor (?).
  • FESTI, Lodovico M. (1980) . Wineliwa kunmala. Iniciação não acaba. Fragmentos da literatura oral recolhidos na Zambézia Central., inédito, dactilografado, Quelimane.
  • FESTI, Lodovico (s. d.) Misibe dha Alomwe. Dizeres comuns dos Lómuès., inédito, dactilografado, não paginado (organização de Júlio Ribeiro).Quelimane: Apostolado pelo Livro e pela Liturgia.
  • JUNOD, Henri ; Jacques, Alexandre (1986) . Vutlhari Bya Vatonga (Mashangana). The wisdom of the Tonga-Shangaan People. Pretoria
  • LOPES, Ana Cristina Macário (1992) . "Provérbios: o "eterno retorno". Literatura popular portuguesa. Teoria da literatura oral/tradicional/popular. Lisboa: F. C. Gulbenkian-ACARTE
  • MANJATE, Teresa (1994) . Simbolismo no contexto proverbial tsonga e makua-lómwé uma análise contrastiva. Tese de Mestrado em Literatura e Cultura Africanas. Lisboa: Universidade Nova/Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
  • MANNONI, Pierre (1998) . Les représentations sociales. Paris: PUF.
  • MARTINEZ, Francisco Lerma (1989) . O Povo Macua e a sua cultura. Lisboa Ministério da Educação/Instituto de Investigação Científica e Tropical.
  • MATOS, A. Valente de (1982) . Cultura Moçambicana.Provérbios macuas. Lisboa: Instituto de Investigação Científica e Tropical/Junta de Investigações Científicas do Ultramar (IICT/JICU).
  • MATUSSE, Gilberto (1998) . A construção da imagem de moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani ba ka Khosa. Maputo: Livraria Universitária/Universidade E. Mondlane.
  • MUIANGA, Lucena; JOSÉ, Alexandrino (1996) . Para compreender a(s) criança(S) moçambicana(S) Maneiras de dizer e olhar. Maputo: Centro de Estudos Africanos (Colecção "Nosso Chão" n.º 8).
  • PENVENNE, Jeanne M. (1992) . "Caras, narrativas, contos, poemas e canções: desafios metodológicos para os historiadores moçambicanos", in Seminário (?) Educação, ensino, investigação e desenvolvimento, realizado no Centro de Estudos Africanos da Universidade E. Mondlane, em Maputo, de 24 a 28 de Agosto de 1992, inedito, dactilografado, 16 pág.s + 2.
  • RIBEIRO, Armando (1989) . 601 provérbios changanas, 2.ª edição. Lisboa: Edição do autor.
  • RIBEIRO, Júlio Rodrigues; BRENTARI, Giovanni B.(1971:114-157) . "Fragmentos da literatura oral", in Da vida africana à vida religiosa no duplo aspecto de continuidade e descontinuidade. Quelimane(Moçambique).
  • SILVA, A. J. da (1992) . Provérbios em Nyaneka. Lisboa: Serviço da Cáritas Portuguesa.
  • VALER, Vito; FESTI, Lodovico (1995) . Dicionário Etxuwabo-Português. Trento: Edit. Centro Missioni Cappucini.
  • VASCONCELOS, Carolina Michaelis de (1986) . "Mil provérbios portugueses", in Separata da Revista Lusitana, Nova Série ?N.º 7, Lisboa.

 

Os meus agradecimentos ao Júlio Ribeiro e ao Dr. António Sopa do Arquivo Histórico de Moçambique, sem a ajuda dos quais me teria sido impossível aceder a uma parte considerável do acervo proverbial moçambicano, metade do qual, aproximadamente, continua inédita.

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação de Leiria,
oliveira@esel.iplei.pt


  
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Edição:

N.º 88
Ano 8, Fevereiro 2000

Autoria:

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria
Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria

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