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A Educação Tradicional em Angola (conclusão)

Ao dar por encerrado, se bem que provisoriamente, o debate sobre a educação tradicional em Angola, depara-se-nos a velha questão: será que há grandes diferenças entre o "sistema educacional" expresso na literatura etnológ(gráf)ica e aquele que transparece na literatura de tradição oral?
Tudo leva a crer que a educação "edénica", sem castigos e feita de admoestações, que colhe a unanimidade da maioria dos etnólog(graf)os angolanistas, não parece ter correspondência na literatura de tradição oral: o "castigo", lato sensu, é duro e abusivo por parte, essencialmente, do pai face à desobediência filial ou ao abuso, de acordo com o que algumas narrativas descrevem; mas, também, a defesa intransigente e o castigo mortal das "mães sociais" prepotentes e/ou assassinas É uma constante.
Nas narrativas, as tarefas, desempenhadas pelas crianças de diferentes sexos que acompanham os pais, a partir de certa idade, não deixam qualquer margem de dúvida em relação à diferenciação dos respectivos papéis, indo ao ponto de se denominar o rapaz de "Julga-Questões" e a rapariga de "Pisa-Farelo" ou "Faz-Pirão" (narrativas lundas-quiocas, Barbosa, 1990:107-112). Nas formas de texto da tradição oral angolana são referidas como desempenhadas por crianças do sexo feminino as seguintes actividades: apanha de conchas; arranque de raízes para cestos; pilar; cavar para encontrar larvas; ajuda da mãe nas lides domésticas; acarretar (água e lenha); sendo mencionadas como tarefas desempenhadas por crianças do sexo masculino actividades de: pastoreio, caça (e acompanhamento); apanha de ratos comestíveis; recolha de mel; ordenha (numa narrativa, um filho de "rei" nhaneca-humbe realiza a tarefa da ordenha, talvez, porque, neste grupo etnolinguístico, a criação de gado é da máxima importância). A inversão do desempenho de tarefas, tradicionalmente desempenhadas por pessoas de sexo feminino, poderá ser tão grave, pelo menos no domínio ficcional, que ocasiona, numa das narrativas nhanecas-humbes, a morte do infractor, o "Homem Sapo-Concho" (o João Ratão das narrativas populares portuguesas).
Mas é no campo da "responsabilidade educacional" que parece haver maior coincidência entre os etnólogos e etnoliteratos angolanos: qualquer falha (ferimento, desaparecimento ou morte casuais do filho acompanhante) recai sempre sobre a mãe, sempre castigada com a morte. ? o preço a pagar pela responsável desta díade indissociável, que forma uma unidade de sentimentos recíprocos tão forte que a "mãe de filhos pequenos" é como "lacrau com crias" (motejo ambundo, Ribas, 1962:127).
Na literatura de tradição oral, aparece um único caso de um "educador infantil" da petizada da aldeia, um idoso, que acaba por ser responsabilizado (pagamento de uma indemnização pesadíssima que o deixa na miséria, acrescido da culpabilização da aldeia, a que o idoso não resiste, suicidando-se) pela morte acidental de uma das crianças (deglutição mortal de uma espinha). Aliás, as consequências desastrosas dos actos infantis são quase sempre suportadas pelos pais ou "mais-velhos", sendo estes que transmitirão a "herança" que os futuros herdeiros deverão respeitar, porque sempre prestimosa, mesmo que não o aparente. O lugar indiscutível que ocupam os "mais-velhos" no "ranking" social é atestado pela maioria dos africanistas, sendo explicada, por Louis-Vincent Thomas (1991:389), pela raridade das pessoas idosas, primado da filiação sobre a aliança, e o papel fundamental da oralidade, único meio de transmitir o saber que reproduz o grupo. Deste modo, as relações entre a criança e os adultos, incluindo os chefes, são de respeito, distanciamento e diferenciação.
A "virtude", que é considerada prioritária, na literatura de tradição oral, e consequentemente valorizada, é, sem qualquer margem de dúvida, a obediência (e submissão) que também é descrita como exemplar na vida real, por Valente (1973), Viegas Guerreiro (1968) e Ferreira Diniz (1918), entre outros. Valorizam-se, como é natural nas sociedades tradicionais, transparecendo na literatura de tradição oral, as "boas maneiras" ou a "educação", em geral: a gratidão, a generosidade e a hospitalidade; modos de apresentação, de estar e de tratamento. Milheiros (1967:249) escreve que "não é de bom tom, entre eles, que as crianças, ao avistarem uma pessoa respeitável, se aproximem muito. Devem fugir, ou, pelo menos, afastar-se até a uma distância respeitável, isto em quase todas as etnias. Incutem às crianças, logo de pequenas, o que eles chamam uoma (medo) pelos superiores. ? o que nós chamamos, à frente, o medo respeitoso. Sempre que alguém a quem devam respeito se aproxime de uma criança, esta deve afastar-se imediatamente e, se chamada por esse alguém, quando se aproximar, não deve levantar os olhos do chão, porque, se fixar essa pessoa de frente, incorre em gravíssima falta de respeito." Também, o furto, nas narrativas tradicionais, é severamente punido pela comunidade, sempre com a morte; excepção aberta para o saque dos bens dos ogros, considerado uma façanha digna do maior apreço.
Os "timings" educacionais são extremamente radicais, como vimos, devendo a educação ser atempada ("de pequenino se torce o pepino", dizem os portugueses), os angolanos utilizam a metáfora da árvore ("pau"):
O pau endireita-se enquanto é pequenino. [provérbio lunda-quioco, (Martins, 1951:183; Barbosa, 1984:153) e ambó (Mittelberger, 1991:168)].
Pau não endireitado, enquanto verde, já não pode sê-lo depois de seco; a criança não ensinada em pequena, quando crescida, não te obedece. (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:240).
O contexto educacional, fortemente comunitário e alicerçado em "classes de idade das sociedades tradicionais, vai realçar a importância, na educação infantil, do parâmetro da "companhia", colocando esta acima da própria escola:
O que ensina a companhia é superior ao que ensina a escola. (provérbio ambundo (Chatelain:1888/1889:138; Matta, 1891:121)).
Em jeito de conclusão, será de todo o interesse referir que as tarefas "duras" e "impossíveis", atribuídas às crianças na literatura de tradição oral, não figuram nos textos etno(gráficos)lógicos.
Qual a objectividade dos dois "géneros de literatura", ou que desígnios ideológicos encobrem descrições tão edénicas da infância tradicional angolana, elaboradas pelos etnó(grafos)logos angolanistas?...

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação de Leiria

Bibliografia citada

  • BARBOSA, Adriano C. (1984) . Quinhentos provérbios Quiocos (Texto bilingue). Santo Tirso: Mosteiro de Singeverga, Ed. Ora & Labora.
  • BARBOSA, Adriano, C. (1990) . Angola imagens e mensagens contos tradicionais. Santo Tirso: Mosteiro de Singeverga, Edição Ora $ Labora.
  • CHATELAIN, Héli (1964) . Contos populares de Angola, (edição original,bilingue, inglês e quimbundo, Published for the American Folk-Lore Society by GE. Stechert & Co., 1894). Lisboa: Agência - Geral do Ultramar.
  • DINIZ, Ferreira (1918) . Populações indígenas de Angola. Coimbra: Imprensa da Universidade.
  • GUERREIRO, M. Viegas (1968) . Bochimanes !KHU de Angola. Lisboa: IICA/JIU.
  • MARTINS, João Vicente (1951) . Subsdios etnográficos para a história dos povos de Angola. Ikuma ?i Mianda Iá Tutchokwe (Provérbios e ditos dos Quiocos). Lisboa: Agência Geral do Ultramar.
  • MATTA, J. C. Cordeiro da (1891) . Philosophia popular em provérbios angolenses. Boston/New York.
  • MILHEIROS, Mário, S. (1967) . Notas de etnografia angolana, 2.™ ed., (1.™ ed., 1951) corr. e aum. Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola.
  • MITTELBERGER, Charles (1991). A Sabedoria do Povo Cuanhama em provérbios e adivinhas. Cunene-Angola. Lisboa (?): Edição L.I.A.M.
  • RIBAS, "scar (1962) . Misisi ó Literatura tradicional angolana, 23º vol., Luanda: Tipografia Angolana.
  • SILVA, António Joaquim da (1989) . Provérbios em Nyaneka. Lisboa: Serviço da Cáritas Portuguesa.
  • THOMAS, Louis-Vincent (1991) . La mort en question. Traces de mort, mort de traces. Paris Éd. L`Harmattan.
  • VALENTE, José Francico (1973). Paisagem africana (Uma tribo angolana no seu fabulário). Luanda: (IICA).

  
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Edição:

N.º 87
Ano 8, Janeiro 2000

Autoria:

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria
Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria

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