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A criança, a Mãe e a Lua

Luar, luar,
Toma o teu ar,
Deixa os meus meninos
Crescer e medrar.
(canção cantada em Baião, in Vasconcelos, 1982, V:80)

Ao contrário do que possa parecer, à primeira vista, abordar algumas das superstições (superstitio, "crenças que ficam", "o que está por cima", super+stare), não é um olhar pelo lado superficial do humano, antes pelo contrário, será um "ver" aquilo que ficou, que se transmitiu (traditio), ao longo dos tempos.
Em ano de eclipse lunar, serão despiciendas quaisquer palavras sobre a importância da simbologia lunar na gestação da criança: na tríade mãe-criança-lua, a lua funciona como cone, "luminoso" ou "sombreado", incidindo sobre uma base formada pela díade, mãe-criança.
São várias as expressões, predominantemente idiomáticas, em Língua Portuguesa, nas quais a lua figura: lua de mel, estar na lua, andar aluado, pedir a lua, é de luas, andar nos cornos da lua, pôr os cornos na lua, ladrar à lua, etc... Em todas estas expressões parece predominar uma carga lunar, simbólica, forte. A lua representa, no inconsciente humano, o "terror do tempo": "os ritmos lunares sempre marcam uma "criação" (lua nova) seguida de um crescimento ( lua cheia), de um decrescimento e de uma "morte" (as três noites sem lua) [...] Para o ?primitivo?, consequentemente, o Tempo é cíclico, o mundo é periodicamente criado e destruído, e o simbolismo lunar de ?nascimento-morte-renascimento? é manifestado em um grande número de mitos e ritos." (Eliade, 1991:68-69).
A lua constitui, deste modo, uma espécie de foco espacial abrangente de sinal positivo ?benéfico, e de sinal negativo ? maléfico: a lua representa, assim, simbolicamente, uma área do sagrado, enquanto a criança-mãe é uma especificação do profano. A ambivalência lunar vai forçar o ser humano a criar ritos de propiciação à lua benéfica, e de esconjuração à lua maléfica, tendo sempre como objectivo final assegurar um espaço de protecção, através duma espécie de esconde-esconde ou, melhor, mostra-esconde.
É dentro deste quadro que se podem justificar os ritos lunares de exposição à lua: a criança é mostrada, exposta à lua que funciona como a "madrinha do céu". É exemplificativa a seguinte canção à lua nova, cantada em S. Geraldo, Montemor-o-Novo:

Lua Santa!
Minha madrinha!
Não me faças mal a mim
Nem a coisa minha!
(Vasconcelos, 1982:27)

No Brasil, recita-se três vezes a seguinte oração, para que a lua deixe estender ao luar as fraldinhas da criança:

Luar, luar,
Crescei, minguai,
Dá-me o teu bem, tomai o meu mal,
Aqui está o meu menino,
Deixai-mo criar.
(id., ibid.:28)

As doenças da lua, consequências dos "ataques da lua", são várias: mal do afito (diarreia), quebranto (fraqueza), "afègar" (respiração ofegante). Além das canções, para fazer face a estas doenças há toda uma panóplia de rezas, acompanhadas de unções de unguentos de produtos vários com se unta toda a criança. Em alguns lados (Alto Alentejo, por exemplo), procede-se ao "benzer da lua" ("benzedura" ou "bênçoa" da lua) , feito pela avó que acompanha a reza com a aspersão de azeite. Noutros lados, como no Cadaval, efectua-se a defumação, acompanhada de rezas com cruzes na mão e um crucifixo sobre a criança:

Menina (ou o nome da criança),
A lua por ti passô
E a tua cor luvô
E a sua dêxô;
Ela por aqui tornará a passar
E a tua tornará a dêxar
E a sua tornará a luvar.
Em lôvor de N. S. da Concêção,
Pois ela a tem na sua mão.
(Vasconcelos, 1982:33)

No domínio dos rituais propiciatório-esconjuratórios à lua, predominam essencialmente os amuletos lunares, infantis e maternos. As meias luas de prata, ou de outros materiais, vêm dos tempos romanos, atravessam o período de permanência muçulmana na Península Ibérica, e chegam aos nossos dias na forma de meias luas de prata, de caroços de azeitona, de aroeira ou de loendro ou adelfa, usado este último pela mulher que amamenta, para que a "lua não lhe apanhe os peitos" (Vasconcelos, 1984:254).
Consiglieri Pedroso (1988:149, 201/3, 257) refere o hábito de, para se saber o sexo da criança, ser necessário saber quando a mãe fica grávida: se no quarto crescente, é rapaz; se no minguante, é rapariga; e que as crianças que nascem na lua cheia são sempre do sexo masculino; há a crença também do que as crianças nascem sempre na enchente da maré.
Interessante será observar os ritos lunares que se realizam nos "antípodas" do território português, nomeadamente no sul de Moçambique, entre o povo tsonga: o primeiro rito, um rito de passagem, realiza-se no terceiro mês após o parto, e chama-se kuyandla: "faz-se assim: no dia em que surge a lua nova, a mãe pega num facho ou mais simplesmente num tição aceso; a avó segue-a com a criança ao colo, e vão ambas ao monte de cinzas atrás da palhota. Chegadas lá, a mãe atira à lua o tição ardente e a avó lança a criança ao ar, dizendo: ?Ali está a tua lua? (hueti yaku hi yoleyo); depois, depõe-na sobre o monte de cinza. O pequenito chora e rebola-se no lixo. Então a mãe levanta-o bruscamente (wutla ), dá-lhe o seio e voltam para casa." (Junod, 1996, I:70-73). O segundo rito, o "rito do cercado" (kubieketa ), processa-se deste modo: "duas vezes por mês, nas tardes da lua nova e da lua cheia, o médico da família vai à aldeia do bebé. Acende uma fogueira diante da porta da palhota e coze as suas tisanas (...) Depois, levanta uma esteira de forma a fazer um pequeno cercado, no qual entram a mãe e o bebé. Cobre-os com um pano de algodão. Eles então debruçam-se sobre o vapor que sai da panela e o fumo produzido pela almôndega." (id., ibid.:72). Claro que o rito é mais complexo, envolvendo incisões e aspersões.
Se os ritos portugueses parecem misturar crenças "pagãs" lunares com preces cristãs, os ritos moçambicanos aliam as crenças lunares às crenças nos deuses e nos antepassados. De comum, observe-se a "defumação" (a cura dos maus ares a que a criança está tão sujeita), figurando a lua, sempre, como testemunha interventora, benéfica ou ominosa, a que é impossível subtrair-se.

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação de Leiria

Bibliografia utilizada
  • ELIADE, Mircea (1991) . Imagens e símbolos. Ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. S. Paulo/Brasil, Livraria Martins Fontes.
  • JUNOD, Henrique-Alexandre (1996) . Usos e costumes dos Bantu, tomo I e II, Maputo, Arquivo Histórico de Moçambique.
  • VASCONCELOS, J. Leite de (1982) . Etnografia Portuguesa. Tentame de Sistematização, vol. V, VIII e IV. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
  • VASCONCELOS, J. Leite de (1984) . Tradições populares de Portugal, 2.ª ed. rev. e aum. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
  • PEDROSO, Consiglieri (1988) . Contribuições para uma mitologia popular portuguesa e outros escritos etnográficos, Lisboa, Pub. D. Quixote.

  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 84
Ano 8, Outubro 1999

Autoria:

Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria
Américo Correia de Oliveira
Escola Superior de Educação, Leiria

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