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Homenagem a Henri Lefebvre

Henri Lefebvre nasceu a l6 de Junho de l90l e faleceu a 29 de Junho de l99l. Longa vida! Pouco tempo antes da sua morte, ao conceder uma entrevista (l), interrogou-se: 'Devo continuar o meu combate pela teoria? Por vezes, pergunto-me se não perdi o meu tempo'. Palavras amargas. Quem pode saber o que ia na sua cabeça quando as proferiu... É notória a semelhança com as de Marx no fim da Crítica do Programa de Gotha : 'Dixi et salvavi animam meam' (Disse e assim salvei a minha alma). Quem pode saber o que ia na sua cabeça quando as escreveu... Combate pela teoria? É um combate pelo conceito, pela elevação da praxis ao nível do conceito, pela vivificação do conceito na praxis, um combate pelo pensamento objectivamente aprofundado. Num dos seus livros perguntou: a que se resume o pensamento no século XIX? Resposta: Hegel, Marx, Nietzche. Que é como quem pergunta: a que se resume o pensamento no século XX?

A partir de l927, Henri Lefebvre adere ao marxismo de que se torna o primeiro divulgador, não só na Europa, mas em todo o mundo. Em l948, há cinquenta anos (a primeira razão desta homenagem - e, portanto, cem anos após a edição do Manifesto, de Marx e Engels), publica Le Marxisme, na colecção 'Que sais-je?' das Presses Universitaires de France. Este livrinho (é o célebre nº 300) tornou-se um verdadeiro 'best-seller', atingindo, sempre na mesma colecção , a 20ª edição em l983 (centenário da morte de Marx). Está actualmente traduzido em quinze línguas, entre as quais, japonesa e árabe. Armando Castro, em O Marxismo no limiar do ano 2000 (2), dá conta da influência de Lefebvre nos marxistas portugueses no final da década de 30 . A revista cultural do Porto, Sol Nascente, começa a publicar a partir do número 29, de l5 de Maio de l938 (há sessenta anos, curiosamente - o que daria só por si motivo para outro texto!), um estudo de Lefebvre sobre a dialéctica com tradução de Jofre Amaral Nogueira. Registe-se, a propósito, que a primeira publicação de Henri Lefebvre sobre a dialéctica data apenas de l940, o que significa que o estudo traduzido pela Sol Nascente (sem citação) só pode ser oriundo de alguma revista francesa que Lefebvre dirigia, ou em que colaborava. Infere-se daqui que o corpo redactorial e de colaboradores da revista portuense acompanhava em cima o que de mais actual se ia produzindo no estrangeiro. Ainda sobre este estudo, relatemos, a título de memória: dadas as circunstâncias políticas em que se vivia, nestes artigos em português do marxista francês, nem uma única vez aparece a palavra Marx, sendo substituída uma só vez pelo nome Maxengel, sem dúvida um artifício do tradutor para escapar a algum ataque dos fascistas. No número de 1 de Maio de l938, a revista apresenta aos leitores a tradução de um pequeno subcapítulo de La Conscience Mystifiée que Lefebvre escreveu de parceria com o seu amigo Norbert Guterman , livro editado pela Gallimard em l936. Em números seguintes surgem notícias sobre as edições de Le Nationalisme contre les Nations e a primeira versão de Le Materialisme Dialectique que Lefebvre irá modificar a pedido do editor ( admirável revista! ). Estes dois livros sofrerão a perseguição dos nazis (Lefebvre entra para a Resistência em 1941).
A partir de l958, Henri Lefebvre abandona a sua condição de militante do P.C.F. O seu combate , agora, é de denúncia do estalinismo, contra o dogmatismo (3), que é o mesmo que dizer contra a transformação do marxismo em ideologia. É um combate que trava, ainda, pelo mundo inteiro. Em l974, logo a seguir ao 25 de Abril, deslocou-se a Portugal. As suas primeiras palavras numa entrevista que a Vida Mundial (4) publicou em Novembro desse ano : o marxismo foi transformado no seu contrário.
Pena é que essa entrevista não aborde o 'caso português'. Em l977, Lefebvre escreveu sobre Portugal: 'Agora, a coberto da fraseologia democrática liberal, este Estado vai evoluir livremente para o MPE (salvo imprevisto)'.
O imprevisto não se deu.
MPE? ... Modo de Produção Estatal, conceito criado por Lefebvre...
O que significa?... É caso para muito estudo, ou como ele diria, para estudar com objectividade aprofundada.
E então talvez possamos levantar um pouco do véu que transformou os homens em parodiantes e esta sociedade em paródia de sociedade.

Guilhermino Monteiro

Notas:

(1) Patricia Latour, Francis Combes, Conversation avec Henri Lefebvre, Messidor, Paris, 1991.
(2) O Marxismo no Limiar do Ano 2000, Ed. Caminho, Biblioteca Universidade Popular, 1985.
(3) A edição de La Somme et le Reste (que se considera autobiográfico) trazia uma cinta com os dizeres: Contre le dogmatisme .
(4) Vida Mundial, nº 1836, 21.11.74.

 


  
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Edição:

N.º 68
Ano 7, Maio 1998

Autoria:

Guilhermino Monteiro
Escola Secundária do Castêlo da Maia
Guilhermino Monteiro
Escola Secundária do Castêlo da Maia

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