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Foi-se embora, em boa hora

Para Maria Florentina Redondo e Maria Rita Fernandes

Não importa a idade. Fazem falta. Lembramos delas. Rezamos por elas porque já não estão connosco, embora a sua presença seja sentida quando rezamos por ela. É bem sabido que eu não sou crente, mas a minha mãe era imensa na sua beatitude e em honra dela, no denominado dia da Mãe, mandamos rezar uma Missa pela sua alma. E sentimos, em silêncio, com respeito que elas nos acompanhavam. Nascemos delas, o nosso corpo foi formado dentro dos seus corpos, fomos amamentados pelos seus peitos, com discrição. Apenas o pai podia estar ao pé da mãe no acto sagrado de dar leite ao filho. Formas antigas, muito verdadeiras que uniam o pequeno corpo ao seu alimentador. Mais ainda, a minha mãe tocava viola e piano comigo dentro do seu corpo. Assim, depois de nascer, eu não chorava quando ouvia a música de Granados, Albeniz, Mozart. Elas chegavam aos meus ouvidos de bebé dorminhoco. As primeiras letras foram com ela aprendidas numa idade muito tenra e a correcção da escrita e da leitura eram feitas com doçura e carinho, para eu não me assustar: tinha em frente de mim uma tarefa complexa, decifrar o código de um livro de texto. Com santa paciência, essa correcção era feita e eu, sem temor, aprendia. Esta era uma das mães, às quais dedico este texto. A outra, teve menos sorte e enviou; o seu filho foi amamentado por uma ama e a criança não pode acariciar esse corpo que o tinha feito. Nem o pai estava presente, não sentia ser o seu dever ou o seu amor: a ama não era a sua mulher, nem sabia música para distrair a ele ou à criança. Azares da vida dentro do capitalismo. A mãe acaba por ser diferente e ter diversas ocupações: há as que sabem música e se entretêm a tocar viola ou piano e assim descobrem o que é mais conveniente para o seu rebento. Há também mães que não têm tempo nem condições, por servirem a outros. Enquanto umas ocupam o seu tempo com o piano, outras ocupam?no com o seu trabalho em outros lares. São as mães que vão embora primeiro, enquanto as outras ficam um pouco mais.
O tempo passa e elas vão ficando doentes ou anciãs. Uma destas mães a que me refiro, foi-se embora muito cedo e deixou filhos órfãos criados pelo pai ou por eles próprios. Mas, em boa hora, porque a doença era dura e não havia maneira de lhe escapar. A outra, envelheceu, foi-se esquecendo do passado e de si própria, até ao dia em que, sem doença nenhuma, deixou esta vida porque não queria viver mais. Era teimosa até consigo própria. Da mesma forma que educou filhos, netos e bisnetos, com doçura e muita oração, decidiu o seu destino pelo cansaço de estar ainda neste mundo, numa altura em que já todos tinham partido e, segundo ela, foi juntar-se ao seu marido. Crente até o fim, estava ciente de que nada mais havia a viver. E foi a sua procura, calmamente, durante o sono, rodeada por toda a sua família.
É preciso aprender crianças, que as mães duram um instante. Os anos passam e os papéis mudam: deixamos de ser cuidados por elas, e passamos nós a cuidar. Sem lares, em casa, com paciência e muita meiguice para quem volta a ser criança outra vez. Que estejam em paz, em comunhão connosco, apareçam nos nossos sonhos, e tomem sempre conta de nós.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 168
Ano 16, Junho 2007

Autoria:

Raúl Iturra
Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, Lisboa
Raúl Iturra
Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, Lisboa

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