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Garibaldino de Andrade, "professor de meninos"
O que do legado intelectual de Garibaldino de Andrade chegou à Escola, através de selectas, enciclopédias e dicionários de literatura, foi a referência como figura marcante do neo-realismo português, centrado no homem e na terra do Alentejo, e em Angola, à sua acção como inspirador e co-fundador da primeira editora que, há quase cinquenta anos, praticou a lusofonia, - a "Imbondeiro"- publicando exclusivamente autores de língua portuguesa, consagrados e iniciados. E a outra menção que se faz , ao correr da biografia, de ter sido professor do ensino primário, está longe de contemplar o desempenho precursor que ele teve enquanto "professor de meninos" (como gostava de se designar) na sua "escolinha" da Palanca, povoação agrícola de forte implantação europeia próxima da cidade angolana de Sá da Bandeira, onde foi colocado quando se transferiu do Alentejo para Angola, em 1953.
Cinquenta anos passados sobre o nosso primeiro encontro, naquela mesma cidade, em 1957, onde permaneceu até poucos meses antes de regressar a Portugal, para tratamento de uma doença incurável que teve o desfecho esperado em Fevereiro de 1970, seria imperdoável não "trazer" a um jornal como a "PÁGINA" a memória de um "professor de meninos" para quem a Escola não servia apenas para ensinar a ler, escrever e contar, - da mesma maneira como o tinham ensinado a ele ? mas também para mostrar caminhos no grande mundo . A brincar, falando sério, citava a propósito aquele que fora seu professor no Liceu de Portalegre, José Régio, a quem dedicara o primeiro livro, "Vila Branca": "Se vim ao mundo, foi/Só para desflorar florestas virgens/E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada"...
Diga-se que Garibaldino de Andrade, além de escritor notabilizado por uma escrita perfeccionista, editor e livreiro com um sentido de "missão" numa Angola ainda não desperta do sono colonial, foi um dos professores primários que, no Ultramar, aderiu à ideia da "escola nova", aplicando o "método global" (só entronizado na Metrópole após o 25 de Abril), mas já com uma abrangência que alguns colegas e encarregados de educação "tradicionalistas" consideravam "bizarra". Contudo, outros colegas havia: aqueles que, com ele, lançaram uma colecção de textos didácticos inovadores, intitulada, emblematicamente, "Colecção Primavera", editada pela "Imbondeiro", que chegou a ser distribuída com sucesso em Portugal. Foram seus autores, além de Garibaldino, Almeida Abrantes, Brito de Figueiredo e António Henriques Carneiro.
"Bizarramente", o ecologista Garibaldino levava os seus alunos, nas manhãs de sábado, a cuidar da horta e dos animais que alimentavam a cantina escolar, acompanhando o desenvolvimento das plantas, o nascimento dos pintos e dos coelhos e, na matança festiva do porco, comparando as suas vísceras com as do homem... Quando dessa prática chegou uma queixa à Direcção Escolar Distrital, formulada pelos paizinhos que, sendo agricultores, educavam os filhos para funcionários públicos, com direito a gravata e mãos de veludo, respondeu aristotelicamente que semeando hortícolas, plantando fruteiras e observando os bichos domésticos os alunos faziam trabalhos manuais e aprendiam, ao vivo, ciências da natureza.
Para Garibaldino a "escola nova" já era "pós-moderna"... Assim a classificaria certamente o professor holandês da Universidade de Han, Jacques Overhoff, que a "PÁGINA" entrevistou há tempos, na qual defendia a necessidade urgente de uma educação ambiental, antes que acontecesse o "desastre" ecológico previsível para quando se esgotasse o tempo do "relógio biológico acelerado" regulador duma sociedade que não se dava conta de que quanto mais se afastava da natureza mais dependente se tornava da farmácia, onde, em último recurso, ia buscar os produtos compensatórios criados pela indústria para colmatar a perda ou desactivação das energias naturais.
Hoje, e certamente não esquecido das proposições de Hubert, Claparède, Ferrière ou Freinet e outras que terá seguido após a sua formação na Escola do Magistério de Coimbra, Garibaldino diria certamente que delas fizera a síntese da "escola necessária" para transmitir o admirável sentido da "placenta" terreal em que se formara o ser humano, pensando que um "professor de meninos" deveria ensinar sempre aos seus educandos, não com a visão baconiana catastrofista de que "coisa alguma perdura, tudo passa", mas, como "corrigia" o Eclesiastes: "tudo passa, só a terra fica." E como advertência de que o futuro estava na mão do homem, evocaria uma reflexão de Enstein, salvo erro, segundo a qual quando as abelhas desaparecessem da face da Terra (pelas suas conexões com os organismos vivos) o homem desapareceria a seguir.

  
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Edição:

N.º 168
Ano 16, Junho 2007

Autoria:

Leonel Cosme
Escritor - Jornalista, Porto
Leonel Cosme
Escritor - Jornalista, Porto

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