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Harry Potter para além da magia e da bruxaria

Mais uma vez, neste ano de 2007, o jovem aprendiz de bruxo Harry Potter, seus amigos, inimigos, professores e professoras voltaram a figurar com destaque nos jornais e revistas do mundo. Isso decorreu, especialmente, do anúncio de lançamento do sétimo (e último) livro da série (previsto para 21 de julho) e do filme baseado nos episódios narrados no quinto livro (previsto para 13 de julho). Criados nos muito bem sucedidos livros da inglesa Joanne Kathleen Rowling (1), tais personagens ganharam as telas dos cinemas em produções altamente lucrativas (2) e, junto, faturaram a Internet, o mundo dos games e a mídia de um modo geral. Mas as mágicas aventuras vividas fazem parte não apenas de um rentável empreendimento literário − que mobilizou leitores de diferentes idades e sexos e tornou milionários a autora da saga, os atores e atrizes que a interpretam, bem como aqueles que comercializam os inúmeros produtos a ela associados (action figures, versões com luz e som de varinhas de condão, uniformes das quatro escolas de bruxaria de Hogwarts, vassouras mágicas, etc.) − como tais histórias invadiram a vida de jovens do mundo inteiro de variadas e interessantes formas, para as quais chamamos a atenção neste texto.
Na intrincada rede de produtos e produções associadas ao sucesso das histórias tem-se configurado significados para um mundo de magia e bruxaria posicionado nos interstícios do chamado mundo real. Contudo, para além disso, nela delineiam-se estereótipos bem marcantes sobre modos de ser jovem e de viver a juventude em uma sociedade (de bruxos) que consagra, de forma até surpreendente, a organização e as estruturas de sociedades ocidentais contemporâneas. É preciso aprender a ser bruxo, e tal aprendizado se dá em uma escola cuja organização repete a das escolas tradicionais. Então, a magia e a bruxaria não subvertem a ordem escolar ou a da sociedade. Ao contrário, as histórias consagram tal ordem, colocando ao mesmo tempo em destaque questões cruciais do nosso tempo − o culto à tecnologia, o racismo, as diferenças sociais, a morte, o amor, a segregação dos diferentes, a emancipação de trabalhadores escravizados −, retomando, ampliando e reconfigurando tais temas freqüentemente destacados em outras histórias infanto-juvenis e em outras produções culturais.
Um dos efeitos bem marcantes dessa rede de produções se expressa nos numerosos chats, fóruns e outros espaços da Internet. Esses congregam fãs desses jovens ídolos, que se envolvem tanto com discussões sobre o destino de personagens, quanto com julgamentos da vida privada e profissional dos atores e atrizes do filme. É também nessa instância que tais fãs soltam a imaginação, dando continuidade às histórias sobre o mundo potteriano nos numerosos fanfictions e fanvídeos, que circulam pela Internet.
Mas as aventuras de Potter têm também motivado a produção de uma outra ordem de textos. Alguns deles discutem as razões do seu sucesso, como o da psicanalista, professora de filosofia e escritora francesa Isabelle Smadja (2004); outros buscam nos mitos e nas lendas significados para explicar o complexo universo simbólico invocado nas histórias, tais como os do antropólogo norte-americano, apaixonado por mitologia, David Colbert (2002); e outros, ainda, como o ensaio publicado no The Wall Street Journal pelo literato e crítico cultural norte-americano Harold Bloom (2000), desferem violentos ataques à obra de Rowling, considerando-a um fenômeno de mercado que estaria ajudando a destruir a cultura literária. Já no contexto da literatura infanto-juvenil brasileira, o professor de comunicação, jornalista e cartunista brasileiro DJota Carvalho (2006) lida de forma mais jocosa com essas histórias de bruxarias, ao escrever uma paródia, intitulada Escola de Sacis, com heróis da mitologia nacional. Enfim, parece que para além do sucesso e das polêmicas acadêmicas e até religiosas suscitadas pela invocação feita à magia e à bruxaria, há efeitos produtivos de muitas e diferentes ordens exercidos por essas histórias mágicas, que se espalharam pelo mundo contemporâneo.

Notas:
1) Há estimativas de que os seis primeiros livros, publicados em 63 idiomas, venderam mais de 300 milhões de exemplares.
2) A Warner Bros Pictures faturou cerca de 600 milhões de dólares com o quarto filme intitulado Harry Potter e o cálice de fogo.

Referências bibliográficas

  • CARVALHO, Djota.Escolas de sacis. Campinas: Dentro da Caixa, 2006
  • COLBERT, David. Los mundos mágicos de Harry Potter: mitos, leyendas y datos fascinantes. Barcelona: B.S.A., 2002.
  • BLOOM, Harold. Can 35 Million Book Buyers Be Wrong? Ies. New York: The Wall Street Journal. 7/11/2000
  • SMADJA, Isabelle. Harry Potter. As razões do sucesso. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004.

  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 168
Ano 16, Junho 2007

Autoria:

Maria Lúcia Castagna Wortmann
Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Luterana do Brasil, coordenadora do Grupo de Estudos de Educação e Ciência como Cultura (GEECC)
Fabiana de Brito Pires
Bolsista de Iniciação Científica da Universidade Luterana do Brasil
Maria Lúcia Castagna Wortmann
Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Luterana do Brasil, coordenadora do Grupo de Estudos de Educação e Ciência como Cultura (GEECC)
Fabiana de Brito Pires
Bolsista de Iniciação Científica da Universidade Luterana do Brasil

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