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Algumas Considerações sobre Ética no Desporto

"Quando ganhar é tudo,
fazemos tudo para ganhar"
(Nicholas, 1989).

O desporto é, de facto, um fenómeno cultural alvo de várias alterações. Este conceito sofre as alterações quase de modo instantâneo, na medida em que a sociedade evolui no redimensionamento de seus princípios e de seus valores (Puga, 2002). Desde a sua criação, como desporto moderno, pelos ingleses no século passado até aos nossos dias, o desporto evolui na sua gestão, métodos de treino, tipos e modalidades desportivas, assim como adaptou as suas formas prático-organizativas com o objectivo de torná-lo acessível a todos os grupos da população que desejem praticá-lo (Santos e Roazzi,1997).
Actualmente o desporto corre o sério risco de acumular um conjunto de perdas morais que o descredibilizam socialmente como factor educativo. O sistema desportivo não pode continuar a abrir mão de um conjunto de princípios e valores que assegurem sentido cultural e formativo à prática desportiva.
Como refere Constantino (1998), esses princípios e valores, têm de estar presentes em todas as dimensões e expressões da prática desportiva e são independentes do rendimento ou sucesso desportivos.
A aquisição de valores e princípios não se faz por imposição, por "decreto", pela simples leitura de documentos, é algo que se constrói, implicando, por isso, o seu "ensino" e a sua "prática" (Gonçalves, 2003).
De acordo com Bento (1998) o desporto faz parte da nossa sociedade, ambos são regidos pelos mesmos sistemas de normas e valores. O desporto é uma actividade cultural que se caracteriza intrinsecamente por possuir um valor educativo inestimável e a estimar. Com efeito, o desporto, pelas suas regras, objectivos e exigências implica, na sua prática, o respeito por valores éticos e morais, tais como: solidariedade, honestidade, disciplina, paciência, compreensão, respeito pelo outro e pela regra, superação, trabalho, etc. (Carreiro da Costa, 2001).
As questões associadas à ética no desporto, e mais especificamente as que dizem respeito ao espírito desportivo e à tolerância, assumem hoje uma importância acrescida.
De facto, não podemos negar a importância, nos diversos âmbitos, da prática e do espectáculo desportivo, mas há que reconhecer também que eles se revelam como campos especiais, nos quais os fins ? ganhar - justificam quaisquer meios - violência, a corrupção, a fraude, o querer ganhar a todo e qualquer custo, o doping, a deslealdade, a ausência de espírito desportivo, etc.
É da responsabilidade pessoal e insubstituível que cada um - pais, professores, treinadores, dirigentes - têm em relação às crianças e jovens para as quais constituem um modelo de referência. No entanto, esses modelos são constituídos e destruídos a uma velocidade vertiginosa, importa pois, proporcionar aos jovens a oportunidade de conhecerem e conviverem com modelos positivos.
O acesso dos jovens à prática desportiva, hoje em dia, faz-se de forma generalizada, o problema consiste em fazer corresponder essa prática a princípios educativos e morais.
Deste modo surge a seguinte questão, sobre a qual vale a pena reflectir um pouco. Será que o modelo de Desporto de rendimento e as elevadas exigências, estará a proporcionar aos jovens, inferências e modelos correctos de prática desportiva?
Nesta perspectiva, se é importante a divulgação e a defesa dos valores, princípios e mensagens éticas do Desporto, como contributo relevante para a moralização do acto desportivo, importa de igual modo denunciar todos aqueles que contribuem para a criação de situações lesivas e atentatórias daqueles princípios (Gonçalves, 1991).
A validade positiva da função social que o desporto desempenha tanto no plano formativo como no educativo, obriga os vários responsáveis, ao adequado tratamento dos efeitos perversos consequentes da sobrevalorização dos aspectos negativos do seu universo, geradores de atitudes e comportamentos opostos às finalidades de um Desporto são e salutar. É por isto que a questão da ética e do fair-play no desporto não pode deixar de ser essencial.


  
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Edição:

N.º 167
Ano 16, Maio 2007

Autoria:

Carla Marisa Maia Moreira
Professora
Carla Marisa Maia Moreira
Professora

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