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Alocução pelos 30 anos de Abril

Perdi a apresentação pública da ?Alocução ao Povo da Aldeia de Fuentevaqueros? e isso foi imperdoável. Com esses pruridos, nada pluralistas, face às iniciativas partidárias, ignorei a sessão de lançamento desta obra de Federico Garcia Lorca. A edição ? comemorativa do 30º aniversário do 25 de Abril -  é do Sector Intelectual do Porto do Partido Comunista Português (PCP) o que,  talvez ?freudianamente?, possa explicar a ausência de muitos jornalistas.
Falando na apresentação da ?Alocução, num discurso escrito que me foi facultado por mão amiga, Jorge Sarabando justifica esta vocação editorial do PCP como um acto político e como um acto que antes de ser político é «de amor à cultura e à eterna luta pela emancipação humana que lhe é inerente». A sugestão partiu de Francisco Duarte Mangas e contou também com a ajuda, entre as de outros, de José da Cruz Santos. Merece-as bem esta alocução de Lorca ao povo da sua aldeia natal.
Diz Sarabando que «a história que nela faz do livro através dos tempos, do seu nascimento em diferentes materiais, de seu desenvolvimento e expansão, até ao deslumbramento visual e táctil dos nossos dias, uma história feita de heroísmo, audácia, engenho e inteligência, e também de violência, intolerância e chamas inquisitoriais, o modo como associa o saber e a cultura à libertação e ao progresso da humanidade, soam como uma grito lúcido e limpo, que rompe a opressão e o obscurantismo».
Opressão e obscurantismo que estão aqui tão perto, na «ditadura do mais forte no Mundo do trabalho, na invasão do mercantilismo totalitário nas áreas sociais onde ao Estado cabe proteger e garantir direitos, no medo, na passividade e na resignação que se vão instalando, tecidos por mil e um fios de imposição autoritária entrançada com o ludíbrio ideológico, na aversão à política e aos políticos que vai alastrando, sem distinguir quem serve e quem se serve, quem promete e quem cumpre, como mancha negra que ultrapassa as fronteiras da racionalidade e é usada pelo mais tonto oportunismo».
Aqui e agora, neste país concreto, onde a cultura é segregada dos horários nobres e das grandes audiências, a informação fragmentada e a realidade servida como telenovela, com a clara intenção de ?formatar consciências, padronizar comportamentos e linguagens e iludir a razão?.  Por isso a ?alocução? de Lorca, ?verdadeiro louvor do livro como bem a repartir por toda a humanidade? bem merece figurar, como sugeriu Sarabando, em todas as bibliotecas públicas do país.
Pelo texto de Federico,  pela qualidade da tradução (de Isabel Ramalhete e José António Gomes ) ?que não perde o halo poético do dircurso de Lorca?, pela síntese ?elegante e elucitativa? de Urbano Tavares Rodrigues, pelo desenho gráfico do Hermínio Bastos e pelas  ilustrações de Acácio de Carvalho, Alfredo Martins, António Fernando, Armando Alves, Fernando Oliveira, Isabel Cabral/Rodrigo Cabral, José Emídio, José Rodrigues e Manuela Bronze.
Recuperei as palavras de Jorge Sarabando mas não as de José Viale Moutinho, a quem coube apresentar esta obra de Lorca, cuja intervenção foi ? dizem-me ? tão notável que também já foi prometida a sua publicação. Aguardo então. Quanto ao livro ? verdadeiro objecto de arte no seu todo ? apenas a  transcrição de um parágrafo: aquele que começa com um significativo ?Nem só de pão vive o homem?.
(...) ?Nem só de pão vive o homem. Eu, se tivesse fome e estivesse desvalido na rua, não pediria um pão; pediria meio pão e um livro. E ataco aqui violentamente aqueles que falam unicamente de reivindicações económicas sem nomear jamais as reiveindicações culturais que é o que as aldeias pedem em gritos. Está bem que os homens comam, mas que todos os homens tenham saber. Que gozem todos os frutos do espírito humano porque o contrário é convertê-los em máquinas ao serviço do Estado, é convertê-los em escravos de uma terrível organização social?.


  
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Edição:

N.º 133
Ano 13, Abril 2004

Autoria:

João Rita
Jornalista, Porto
João Rita
Jornalista, Porto

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