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Rohmer Todo

?Sabe o que preocupa quando um filme acaba?
Gosto que o filme dê ao espectador a impressão que
não acabou. Porque creio que uma obra de arte onde o
espectador e o crítico não trazem a sua parte não é uma
obra de arte. Gosto que os que vêm o filme construam
 paralelamente a sua própria história ...?
Jean Renoir 

Ao mesmo tempo que a obra integral de Rhomer é apresentada na Cinemateca Francesa, estreia nos cinemas a sua última longa-metragem (a vigésima quarta) ?Triple Agent?, sai em França a última caixa com os DVD dos seus últimos filmes e é reeditada em França, pelas mãos dos Cahiers du Cinéma, ?Le Gout de la Beauté?, recolha dos seus artigos escritos entre 1948 e1979. Extraordinária longevidade de uma obra coerente, sem uma única baixa de exigência em mais de quatro décadas de actividade.
Tivemos Rivette em Novembro, Resnais em Dezembro, esperamos Godard em Maio e Chabrol está em rodagem. Esta fecundidade de longo curso, sem equivalente em qualquer outro lugar do mundo, teria sido impossível sem o ambiente económico e institucional favorável que caracterizou o cinema francês neste período. Não se trata somente de reconhecer uma força estonteante, mas também de constatar novamente o extraordinário ?élan? tomado durante os anos 50/60, uma potência de deflagração que projectou cada artista para uma trajectória diferente, fora das normas.
Exemplar e singular a todos os títulos, Eric Rohmer- o seu verdadeiro nome é Maurice Schèrer- distingue-se também pela invenção da economia do seu cinema. Esta característica contribui para a grandeza do seu comprometimento como artista, e testemunha à sua maneira a inteligência profunda do que é o cinema desta ex-redactor chefe dos Cahiers du Cinéma. A fundação, com Barbet Scroeder, dos Films du Losange, a concepção de séries de filmes, um sentido agudo do equilíbrio entre os fins artísticos e os meios materiais, as escolhas dos meios técnicos, o ?casting? e a distribuição, criaram e mantiveram a independência estética do autor Rohmer, a sua capacidade de rodar ao seu ritmo, e fizeram dele ?o mais rentável dos realizadores franceses? durante décadas.
Não se trata da idealização do passado. Os dois primeiros filmes da série ?Contos Morais?, médias-metragens atípicas, tiveram de esperar mais de dez anos antes de poderem ser distribuídas em salas. Nenhuma época foi espontaneamente  acolhedora para os artistas verdadeiramente originais. Mas depois do terceiro filme da série - ?A minha noite em casa de Maude?- que conheceu um sucesso inesperado, Rohmer pode integrar o universo do cinema «normal», e prosperar. Não é absolutamente certo que isto fosse possível hoje. Até porque hoje, separado do Losange, o realizador tem de construir para um a um as condições de produção dos seus filmes. Os jovens realizadores de hoje, seus longínquos herdeiros, enfrentam um ambiente bem diferente.
Os projectos marginais não estão, obrigatoriamente, pior do que estavam há quarenta anos, os espaços especiais (festivais, galerias, salas especializadas) continuam susceptíveis de os acolher. O que está em  perigo hoje é a continuidade do cinema como conjunto, com o seu centro e as suas margens. Cada vez mais violentamente, nas estratégias de distribuição, nas escolhas das comissões que decidem os apoios, nos ?media? dominantes, o ?centro? rejeita as margens, ostraciza-as e ? isto é novo - orgulha-se disso.
De uma maneira ou de outra, os artistas da margem inventam alternativas para as suas obras. São estas que lhes permitem existir, mas em condições em que se arriscam a bater na parede, e tornar definitivo um cinema a duas velocidades, onde o autor de ?A padeira de Monceau? de hoje - o primeiro filme da série ?Contos Morais?- não teria possibilidades de fazer triunfar num circuito clássico ?A minha noite em casa de Maude? de amanhã.
Falta, obviamente, um nome na lista dos grandes nomes da Nouvelle Vague, evocada acima. François Truffaut. Este ano  passa o 20º aniversário da sua morte. Poderia marcar de forma decisiva um  combate que travou durante toda a sua vida, e que é o risco, mais actual que nunca, de ver o cinema partir-se em bocados.
Por essas e por outras é que eu subscrevo as afirmações de Alain Bergala nos Cahiers de Março 2004:
?O cinema já não respira, como respira ainda em Portugal e no Irão, países que produzem bem menos filmes. É verdade que o sistema se tornou impiedoso para os jovens autores.(...) O mais livre dos cineastas actuais, hoje, é para mim Manoel Oliveira, em que cada plano é de uma liberdade de eixo, de enquadramento, de tempo invulgar, onde cada cena reinventa a virgindade do filme?.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 133
Ano 13, Abril 2004

Autoria:

Paulo Teixeira de Sousa
Escola Secundária Especializada de Ensino Artístico de Soares dos Reis, Porto
Paulo Teixeira de Sousa
Escola Secundária Especializada de Ensino Artístico de Soares dos Reis, Porto

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