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30 anos de Abril Mudaram os tempos e não se mudaram as vontades

Na passagem dos trinta anos do 25 de Abril de 1974, que são muitos e sempre se recordam, o que sobra dos dias tumultuosos de festa e de espanto, mesmo na nostalgia de outros dias de Maio, é ainda essa vaga longínqua de sobressalto das consciências, na forma de despertar para outros sonhos de liberdade e na conquista das liberdades cívicas, mas, sobretudo, no arrumar definitivo da descolonização e da independência dos povos africanos de expressão portuguesa.
Porém, logo desde os primeiros meses, se pressentiu que nem tudo correria pelo melhor dos mundos, talvez se mudassem os tempos sem se mudarem as vontades, no rasto camoniano de boa memória. Na verdade, a vida portuguesa foi abalada em todos os seus alicerces, ao fim de quase cinquenta anos de ditadura fascista, e o sacudir das águas depressa fez entender que há sempre gente disposta a tudo (os ?vira-casacas? e os ?oportunistas? de toda a laia), a dar de barato as posições que defendiam porque outras haviam surgir no horizonte, na clara pulverização dos partidos políticos e nas ?palavras de ordem? que, com o andar dos anos, se tornaram vazias de sentido.
Mas esse tempo de barcas novas, de pessoas com outros rostos, de um país voltado para a Europa no acertar do passo pelo relógio europeu, foi reconhecido como um tempo de mudança e outras barcas se fizeram ao mar para navegar mais livremente, em tempo de mais bonança e de outra esperança, no meio da alegria e da festa colectiva um pouco por toda a parte. E, pela inquietação vivida nesses anos de poder salazarista e marcelista que levou tempo a derrubar, a alvorada de Abril impôs que se tivesse uma ?visão? diferente de festa e de imediata adesão sobretudo por parte daqueles que lutaram para que tudo desaparecesse e outros ventos trouxessem novas revoadas de alegria e de liberdade.
Ora, em jeito de balanço para relembrar Abril e entender os valores  postos em jogo, sabemos hoje que nem sempre os políticos ou militares tiveram razão, nos altos e baixos das suas várias posições e atitudes (mudaram-se muitas coisas do essencial da nossa vida colectiva, é certo, mas ao fim de trinta anos parece que tudo ficou na mesma ou está muito pior, lembremos a calamidade do desemprego, a despudorada corrupção a todos os níveis, a inexplicável e penosa situação da saúde, as condições de segurança e os conflitos sociais que revelam esse ?quadro negro? a que se chegou em tantos sectores da nossa realidade), e no meio de um tal descalabro só os poetas se ergueram, antes e depois, como vozes de resistência ou de protesto nos muitos anos de pesadelo e desastre pelas vagas fascizantes que varreram a Europa depois de Maio de 68. E só não guarda disso boa memória quem não teve nunca de vigiar e policiar o seu ?discurso?, atenuar em zonas de expressiva ambiguidade o que gostava dizer de forma clara,soltando aos quatro ventos as palavras que pudessem escapar à Censura e a outros olhares vigilantes e inquisidores, como Miguel Torga soube proclamar:
                            Apetece cantar, mas ninguém canta.
                            Apetece chorar, mas ninguém chora.
                            Um fantasma levanta
                            A mão do medo sobre a nossa hora.

Mas, depois de por trinta vezes se ter já celebrado o 25 de Abril, que é muito e ainda pouco tempo para se fazer a história, revelam-se bem evidentes os sinais de mudança e tão variados se mostram que em pouco  se alterou a consciência e o sentido de todas as coisas: foram rápidos e correram depressa os dias da nossa alegria, nas promessas de se querer repensar o País e questionar Abril, para se eliminar a atávica mentalidade fradesca que os cinquenta anos de fascismo pareciam ter consolidado. Sim, é verdade que a ?poesia? andou por aí à solta nas ruas das vilas e cidades, depressa se recolheram e esqueceram esses cartazes, não foi sol que durasse muito nos dias do nosso espanto, porque logo nos fizeram esquecer os sonhos dessa república ateniense pensada por Platão e não consentiram que a alegria nos enchesse o coração.
E por isso repetimos que apenas os poetas se podem ainda levantar no habitual sentido transgressor e subversivo, revolucionário e utópico, de revelarem a sua (e a nossa) inquietação, longe das muito certas e perdidas nostalgias ao longo de tantos anos, que alguns dizem em voz alta terem sido de ?consolidação da democracia? ou ?construção de um Estado de direito? (e vá-se lá saber o que na vida de todos os dias isso significa), vivemos num país cada vez mais pobre e que conta ainda muitos ricos,  avançamos a passo de mula e de carroça (que não é de oiro, como a celebrada por Jean Renoir) para a ?casa comum europeia?.
E, nas margens dessa utopia que nos sobra, existe ainda um diálogo renovado com os poetas e com a estranha clareza como nos sabem falar dos enganos e ilusões desta vida, não na atitude de interpelarem o mundo ou assim melhor se fazerem entender, mas no gosto de desvendarem um outro sentido de ser visível ?o que no invisível se vê?, como desejava Pessoa.
Assim, nos trinta anos depois de Abril de 1974 não deixamos de evocar alguns dos que partiram desta vida descontentes: os ?capitães de Abril? Ramiro Correia e Salgueiro Maia, os poetas Jorge de Sena, Ruy Belo, Raul de Carvalho, Miguel Torga, José Gomes Ferreira ou Ary dos Santos,os celebrados cantores de intervenção Adriano Correia de Oliveira ou José Afonso, ou escritores como Carlos de Oliveira, Natália Correia, Manuel da Fonseca, Fernando Namora e Vergílio Ferreira, que pelo sonho em que vamos ou pela magia da escrita se debateram com toda a espécie de problemas e nas imagens de pessoas, coisas e lugares entenderam a vida como forma de redenção ou de condenação.
Mas, apesar de tudo, podemos ainda gritar - ?viva Abril? - porque há-de chegar o tempo de outras mudanças e outras vontades se mudarão no sentido da tão necessária alegria e festa colectiva. Esperemos que sim!


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 133
Ano 13, Abril 2004

Autoria:

Serafim Ferreira
Escritor e Crítico Literário, Lisboa. Colaborador do Jornal A Página da Educação.
Serafim Ferreira
Escritor e Crítico Literário, Lisboa. Colaborador do Jornal A Página da Educação.

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