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A Revolução dos Cravos

O calendário marca o dia 25 de Abril de 1974. Pela madrugada o Movimento das Forças Armadas inicia o derrube do governo de Marcello Caetano. Os tanques ocuparam as principais praças da capital do poder. E nessa manhã, quem saiu de casa a contar com mais um dia de trabalho ficou pelas ruas a festejar? A história da Revolução dos Cravos contada com base na imprensa da época por quem nasceu depois.

Dias antes

Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não
(Manuel Alegre, Trova do vento que passa)

Aparentemente reina a normalidade no País do ?orgulhosamente sós? salazarista. Faltam dois dias para a revolução mas nada parece acontecer em Portugal. Os jornais enchem páginas com a actualidade internacional.
Da Inglaterra chegam notícias de uma tempestade política. O governo trabalhista apresenta um projecto que escandaliza os deputados conservadores. Decide devolver aos sindicados dez milhões de libras relativos aos impostos cobrados sobre as quotizações sindicais.
Na França disputam-se as presidenciais. Os candidatos são: Jean Royer, o ?maire? de Tours, intitulado o ?defensor da ordem moral?; Jacques Chaban-Delmas, candidato gaulista; François Mitterrand, da esquerda e Giscard D?Estaing, da direita. As sondagens mostram que o interesse pelo escrutínio é de 82%.
Em Dortmund, na Alemanha Federal, 17 mil agricultores da Comunidade Económica Europeia, manifestam-se contra as decisões tomadas em Bruxelas pelos ministros da agricultura dos ?Nove? que fixaram o aumento dos preços agrícolas em 8,5% contra os 12% pretendidos pelas empresas agrícolas. Em Israel, o chefe de Estado Ephrahim Katzir convida Yitzhak Rabin, ministro do trabalho, para tentar formar um novo governo de coligação. Os EUA assistiam ao desenrolar do caso Wartergate. No México, o presidente Luis Echeverria oferece refúgio naquele país ao Governo Republicano Espanhol, exilado em Paris na sequência da Guerra Civil de 1936/39.
A actualidade política portuguesa cinge-se aos trabalhos na Assembleia Nacional. Durante a apresentação das contas gerais do Estado de 1972, o deputado e vice-almirante Reboredo e Silva manifesta-se contra o exercício de cargos políticos por oficiais das Forças Armadas. E avança com a ideia de que mesmo os ministérios das pastas militares sejam ocupados por civis.
Um dia depois, a pretexto do incêndio que destruiu parcialmente o edifício da Faculdade de Ciências do Porto são analisadas na Assembleia Nacional as implicações dos chamados ?Movimentos Académicos?. Num discurso fora do comum, o deputado nortenho Ferreira da Silva manifesta uma opinião quase premonitória: ?A falta de cumprimento de muitas das mais elementares normas dos direitos dum cidadão, por parte do Ministério da Educação Nacional, é quanto a mim, uma das causas que estão na base do espírito de revolta de uma parte da população académica.?

A queda do regime

Cobre-te canalha / Na mortalha / Hoje o rei vai nu
Os velhos tiranos / De há mil anos / Morrem como tu
Abre uma trincheira / Companheira / Deita-te no chão
Sempre à tua frente / Viste gente / Doutra condição
Ergue-te ó Sol de Verão / Somos nós os teus cantores /
Da matinal canção / Ouvem-se já os rumores /
Ouvem-se já os clamores / Ouvem-se já os tambores
Livra-te do medo / Que bem cedo / Há-de o Sol queimar
E tu camarada / Põe-te em guarda / Que te vão matar?
(Zeca Afonso; canção: Coro da Primavera)

Madrugada de quinta-feira, 25 de Abril. Portugal dorme. Num posto de comando clandestino, formado no Regimento nº 1 na Pontinha, em Lisboa, há um aparelho de rádio sintonizado na estação da Rádio Renascença. Á sua volta alguns oficiais das Forças Armadas esperam ansiosos ouvir a senha que confirmará o curso irremediável da revolução planeada. Ela virá sob a forma de uma canção: ?Grândola, Vila Morena, Terra da fraternidade, O povo é quem mais ordena, Dentro de ti, ó cidade?, do cantor José Afonso. Passa meia hora da meia-noite quando a rádio a põe no ar. Por todo o país iniciam-se movimentações militares. Soldados saem às ruas em tanques, jipes e camiões. É necessária a tomada de posição em pontos estratégicos: Quartéis-generais, pontes, aeroportos, postos de comunicações. Em Lisboa, as colunas militares deslocam-se pelas zonas circundantes à Baixa Pombalina e ao Terreiro do Paço, ocupando o centro da cidade e impedindo a passagem. Furriéis e cabos milicianos mantêm-se de metralhadora em punho e munições no chão.
Na mira dos soldados os edifícios do poder político e policial. O aparato militar nas ruas é grande, mas os soldados aparentam absoluta tranquilidade. Os seus rostos serenos contrastam com a estupefacção de quem de manhã se faz ao emprego para mais um dia de trabalho. Percebendo que se trata de um golpe de Estado muitos populares deixam-se ficar nas ruas perto dos soldados e dos seus carros de combate. 
Ao longo da manhã a situação vai-se clarificando. Através de comunicados lidos no Rádio Clube Português, em Lisboa, a população é informada de que está em curso uma acção de um Movimento das Forças Armadas (MFA) com vista à libertação do País. As mensagens trazem mais gente à rua, apesar dos apelos dos militares para que a população regresse a casa e se mantenha calma.
O MFA teme o derramamento de sangue. E quer a todo o custo evitá-lo. Por isso apela também às forças militarizadas, potencialmente opositoras, que não interfiram no processo. À Polícia de Segurança Pública (PSP), à Guarda Nacional Republicana (GNR) e ?às forças da Direcção-Geral de Segurança / PIDE-DGS e da Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico?, ouve-se na rádio. Ainda assim uma coluna da PSP tenta ?travar? a  revolução, mas é rapidamente neutralizada sem que haja confrontos de maior.  
Entretanto, as operações militares desencadeadas levam Marcello Caetano, Presidente do Conselho de Ministros a procurar refúgio no Quartel-General da GNR no Largo do Carmo, juntamente com outros membros do Governo. O reduto não é, no entanto, seguro. Ao tomar conhecimento desta situação as tropas do MFA, comandadas pelo Capitão José Salgueiro Maia, partem do Terreiro do Paço para o Largo do Carmo cercando o edifício. A massa de populares avoluma-se na expectativa da rendição de Marcello Caetano. Mas esta tarda. Chegada a hora do almoço, e uma vez que os militares não podem abandonar os seus postos, a população trata de lhes fazer a merenda distribuindo pão com queijo e fiambre, maças, cervejas e tabaco.
O cerco dura há duas horas. De megafone na mão, Salgueiro Maia pede aos sitiados que se rendam. Não obtém resposta. O ataque das Forças Armadas parece iminente. Preocupado com os civis, Salgueiro Maia dirige-se à multidão e pede que esta abandone o largo. Mas ninguém arreda pé. Há lágrimas nos olhos da população. Todos querem ver para crer na queda do regime. O capitão compreende que sem o recurso à força é impossível evacuar o largo.
A necessidade de resolver o impasse agiganta-se. São disparadas duas rajadas de metralhadora sobre o quartel deixando a sua fachada cravejada de balas. É então que dois homens, Feytor Pinto, ex-director dos Serviços de Informação e Nuno Távora, funcionário daquele organismo, se apresentam por iniciativa do primeiro para entrar no quartel e negociar a rendição dos sitiados.
Quando sai do edifício, Feytor Pinto traz a notícia de que Marcello Caetano acede a entregar o comando das Forças Armadas ao General António de Spínola, conhecido pelas suas posições contra a guerra Ultramarina e ele próprio cabecilha de uma outra tentativa de golpe fracassado. Está negociada a rendição. A multidão irrompe em vivas. Tinha-se evitado o pior. Mas num outro lugar, ele tinha acontecido.
Do edifício da Direcção-Geral de Segurança (DGS), na Rua António Maria Cardoso alguns agentes tinham começado a disparar rajadas de metralhadora e a lançar gases lacrimogéneos contra jovens que ali se manifestavam. O tiroteio dura 7 minutos. Os manifestantes protegem-se atirando-se para debaixo dos automóveis em frente ao Teatro S. Luiz. Mas cinco jovens são baleados e acabam por sucumbir. Feridos são cerca de 30. As ambulâncias acodem ao lugar. Ouvem-se gritos de ?assassinos?.
Depois de avisada do sucedido, uma força militar que estava estacionada no Largo do Chiado acorre ao local. Momentos depois chegam reforços: um esquadrão de cavalaria e elementos da PSP que entretanto tinham aderido ao MFA. Reforçam-se posições em torno do edifício da DGS e fecham-se as ruas adjacentes. É preciso evitar a fuga dos agentes e negociar a sua rendição. Estes serão cerca de 200, incluindo-se o seu director Silva Pais.
Anoitece, mas os sitiados não dão mostra de cansaço. Durante o período de expectativa outros agentes da PIDE são descobertos e denunciados. Um deles põe-se em fuga e é morto por um militar. Quando os bombeiros chegam ao local para remover o corpo a população barra-lhes a passagem. ?Os PIDES morrem na rua?, grita um anónimo entre a multidão inconformada.
Os militares tudo fazem para evitar eventuais represálias da população mais exaltada sobre os agentes. A DGS será um dos últimos bastiões do regime a cair. A rendição dos agentes da PIDE acontece apenas na manhã do dia 26 de Abril. São transportados para a prisão de Caxias de onde à mesma hora estão a ser libertados os presos políticos que ali estavam detidos.

Os dias seguintes

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma / Ei-la na escuridão serena  resistindo/
Hierática Estranha   Sem medida / Maior do que a tortura ou o assassínio/
Ei-la virando-se na cama / Ei-la em trajes menores   Ei-la furtiva/
seminua sensual e no entanto pura / Noiva e mãe de três filhos  Namorada/
e prostituta  Virgem desamparada / e mundana infiel  Corpo solar desejo/
amor  logro  bordel  soluço de suicida/
Ei-la capaz de tudo  Ei-la ela mesma / em praças  ruas  becos  boîtes  e monumentos/
Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada / ignóbil e miraculosamente erecta/
branca  quase feliz  quase feliz.
(Daniel Filipe, A invenção do amor)

Quem num impulso de pânico, ao saber da revolução, açambarcou pão comeu-o seco no dia seguinte. Pois, sem grandes sobressaltos, a vida quotidiana voltava à normalidade na manhã de 26 de Abril.
As linhas telefónicas dos TLP (Telefones de Lisboa e Porto) estavam desimpedidas e já não era possível escutar a conversa alheia ao levantar o auscultador. Os CTT puderam pôr a correspondência em dia, depois de terem parado a distribuição na véspera devido à interdição do acesso ao Terreiro do Paço. Também as salas de espectáculos abrem as suas portas.
No Teatro Sá da Bandeira, no Porto, o espectáculo ?Simplesmente Revista? sobe ao palco com alterações significativas. A revolução torna desactualizadas as piadas sobre determinadas situações porque elas deixam, simplesmente, de existir. Então o espectáculo ?oficial? dá lugar a um outro improvisado. José Viana, um dos actores, troca os textos pela declamação de poemas de Bocage e Fernando Pessoa. Assim que o pano sobe, gira um disco com a música ?Grândola, Vila Morena?, nos bastidores. O público junta a letra à música e canta em coro a senha que havia dado início à revolução.  
Vinte e quatro horas depois do golpe militar, o General António Spínola dirige uma proclamação ao povo português na qualidade de presidente da recém constituída Junta de Salvação Nacional (JSN). No discurso, transmitido pela RTP e pelo Rádio Clube Português, António Spínola reafirma a vontade do Movimento das Forças Armadas em repor as liberdades cívicas dos cidadãos. Anuncia que o poder político será exercido pela JSN até à formação de um Governo provisório civil já que o anterior se encontra de imediato destituído.
O programa da JSN é também dado a conhecer à população. Dele constam apenas medidas imediatas e a serem tomadas a curto prazo. É urgente pôr o País a funcionar de uma maneira diferente. Para tal a JSN estabelece ainda um prazo de 12 meses para a realização das primeiras eleições da Assembleia Nacional Constituinte da era democrática. Decreta liberdade de associação, expressão e pensamento, abolição da censura, amnistia aos presos políticos e reconhece que a solução para as «guerras ultramarinas» é política e não militar.
A 27 de Abril, António Spínola assegura aos directores dos órgãos informativos numa conferência de imprensa no Palácio da Cova da Moura onde a JSN se havia instalado que haverá uma separação inequívoca entre o Governo e as Forças armadas para que não haja dúvidas sobre o fim do regime autoritário. Mário Soares, secretário-geral do Partido Socialista Português, ainda exilado em Paris, confessa-se confiante em que o exército português não haja como o chileno. Na comunidade internacional gera-se uma grande expectativa em torno da viragem revolucionária. O Brasil é o único Estado que até à data reconhece soberania à JSN.
A posição da JSN relativamente à questão do ultramar fica mais clara após a conferência de António Spínola. Pretende-se ?a promoção de melhor qualidade de vida e a autodeterminação, em lugar da independência imediata uma vez que esta não correspondia à aceitação da vontade do povo.? Spínola entende que para poder escolher livremente o seu destino, o povo precisa de estar consciencializado caso contrário este será determinado por terceiros.
Enquanto vão chegando a Portugal alguns exilados políticos, entre eles Mário Soares e Álvaro Cunhal secretário-geral do Partido Comunista Português, sucedem-se os apelos da JSN para que PIDES e Legionários se entreguem nas unidades militares a fim de evitar tentativas de justiça sumária. Entretanto os edifícios que abrigavam estas forças são postos à vista. Os arquivos são abertos. Os militares tentam preservar o máximo de documentação das actividades agora ilegais daqueles organismos.
Na Escola Técnica da PIDE-DGS, onde os agentes eram formados em cursos de três meses, abreviados para quatro semanas devido ao esforço da guerra do ultramar, são encontrados álbuns com fotografias de homens, mulheres e crianças assassinadas ou torturadas. Na biblioteca, livros de Lenine, Marx e Staline, colecções de revistas francesas ?Esprit?, ?La Pensée?, ?Nouvelle Critique?, leituras proibidas pelo regime. Na parede de uma sala um quadro com uma poesia escrita por Salazar quando este tinha dez anos.   
Se por um lado há uma vontade de ajustar contas com o passado, ainda recente, por outro lado surge a necessidade de fazer andar para a frente a vida nacional. No plano económico, as operações bancárias sofrem algumas restrições. São suspensas todas as transacções de valores mobiliários e é determinado o encerramento da bolsa. Os bancos só abrem para pagar remunerações de ordenados e salários dias 29 e 30 Abril. Pretende-se com isto ?evitar que o público tome medidas precipitadas com reflexos negativos para o País?, anuncia um dos comunicados da JSN.
No ensino a palavra de ordem é normalizar. Reabrem as associações de estudantes, algumas direcções de escolas e faculdades são intimadas à demissão por a sua nomeação ter sido imposta por critérios exclusivamente políticos e não académicos. Multiplicam-se as Reuniões Gerais de Alunos e Professores.
A par do despontar do associativismo, a promessa de António Spínola de que o desmantelamento do aparelho do anterior regime será acelerado. Trabalha-se arduamente no Palácio da Cova da Moura para onde afluem individualidades da política, da sociedade civil e do mundo do espectáculo. Levam propostas, ideias ou preocupações que são tidas em conta pela máquina administrativa então criada pela JSN.
As páginas dos jornais enchem-se com agradecimentos às Forças Armadas pela acção libertadora e democrática com que acabara de abolir 48 anos de ditadura salazarista e marcelista.

O 1º de Maio

Enquanto há força / No braço que vinga /Que venham ventos / Virar-nos as quilhas
Seremos muitos / Seremos alguém
Cantai rapazes / Dançai raparigas / E vós altivas /Cantai também
Levanta o braço / Faz dele uma barra /Que venha a brisa /Lavar-nos a cara
Seremos muitos / Seremos alguém
Cantai rapazes / Dançai raparigas / E vós altivas / Cantai também
(Zeca Afonso, canção: Enquanto Há Força)

O sol estava forte. Faziam-se leques de qualquer coisa que pudesse ser abanado. Os homens desapertavam as camisas. As senhoras pediam copos de água prontamente oferecidos pelos inquilinos do rés-do-chão. Os passos eram curtos porque a multidão era grande. Mas o entusiasmo não esmorecia.
O cortejo engrossava pois a uma massa de gente em movimento mais se juntava vinda de todas as ruas de Lisboa. Novos, velhos, trocando cravos com a alegria que estivera hipotecada por quase meio século de ditadura. Ninguém se atropelava. O destino: o Estádio da FNAT (Federação Nacional da Alegria no Trabalho) onde iriam para o palco os comícios de celebração do 1º dia de Maio. Os discursos de Mário Soares e Álvaro Cunhal eram os mais aguardados.
As bandas militares da PSP e da GNR davam concertos nos coretos públicos. Uma forma de também contribuírem para a festa. Animado o povo seguia de mãos dadas ou empunhando cartazes: ?Nem mais um embarque e regresso dos soldados já!?. Às palavras de ordem sucedem-se algumas cantilenas, improvisadas por uns e logo repetidas por todos. ?Ó Rosa arredonda a saia, Ó Rosa arredonda-a bem, Que o Marcello e mais a PIDE, Já não matam mais ninguém?. Músicas antigas com letras adaptadas. ?Deixa passar esta linda brincadeira, Que o Marcello e o Tomás estão na ilha da Madeira??
No Porto, a festa fazia-se de igual forma. Com um mar de gente a afluir à Baixa portuense. A determinação nos rostos. Lágrimas e abraços para os soldados que se viam nas ruas. Dedos em V, em sinal de vitória. ?Ninguém nos pagou, viemos livremente?, lia-se num dos muitos cartazes empunhados. ?O nosso destino será feito pelas nossas mãos?, via-se num outro.
Contrariando as expectativas dos defensores do regime deposto, as celebrações do Dia do Trabalhador foram um exemplo massivo da maturidade cívica que durante meio século havia sido negada ao povo português. A democracia assentava bem os pés no chão. Agora, o Povo descobria e rasgava outros caminhos.
Nos dias e meses seguintes perguntaram ao povo ? De quem é o Carvalhal? E o Povo, com olhar decidido, determinado, dando os braços, respondeu alto e a uma só voz: É NOSSO.

Breve cronologia

1974
24 Abril [Quarta-feira]

22h55
Os Emissores Associados de Lisboa tocam a canção ?E depois do Adeus?, interpretada por Paulo de Carvalho, vencedora do Festival da Eurovisão dias antes. Está no ar o primeiro sinal do golpe militar.

25 Abril
[Quinta-feira]

00h30
A canção ?Grândola, Vila Morena? de José Afonso vai para o ar no programa ?Limite? da Rádio Renascença servindo de senha ao movimento para confirmar que a operação se encontra em marcha e é irreversível.
1h Inicia-se a acção revolucionária do Movimento das Forças Armadas (MFA) em Tomar, Vendas Novas, Lisboa, Figueira da Foz, Viseu, Mafra, Estremoz e em outros pontos. No Regimento de Engenharia 1 na Pontinha, Otelo Saraiva de Carvalho e outros cinco oficiais ligados ao Movimento das Forças Armadas comandam as operações de um posto de comando clandestino.
3h São ocupados os estúdios da RTP, do RCP, aeroporto de Lisboa, além de outros pontos vitais.
4h20 Primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas lido por Joaquim Furtado aos microfones do Rádio Clube Português: ?Aqui posto de comando do MFA: informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente, deverá recolher a suas casas mantendo absoluta calma. A todos os componentes das forças militarizadas, nomeadamente das forças da GNR, PSP e ainda às forças da Direcção-Geral de Segurança [DGS/PIDE] e Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico de contribuírem para a manutenção da ordem pública, o que na presente situação só pode ser alcançado se não for posta qualquer reacção às Forças Armadas. Tal reacção (?) apenas conduziria a um indesejável derramamento de sangue (?). Embora estando crentes do civismo e do bom senso de todos os portugueses, no sentido de evitarem qualquer recontro armado, apelamos para que os médicos e pessoal de enfermagem se apresentem nos hospitais para uma colaboração que fazemos votos por que seja desnecessária.?
Ao longo do dia sucedem-se os comunicados com informações sobre os alcances do golpe militar e apelos à população para que mantenha a serenidade.
4h45 Novo comunicado apelando às forças militarizadas para que os seus elementos regressem aos quartéis e a avisar que as chefias que conduzirem os seus subordinados à luta com o MFA serão severamente responsabilizados.
5h Tropas ocupam a área que envolve o Quartel-General da Região do Porto.
5h15 Comunicado discriminando as forças potencialmente opositoras ao MFA: Polícia de Segurança Pública, Guarda Nacional Republicana, Direcção-Geral de Segurança / PIDE e Legião Portuguesa.
7h Veículos militares permaneciam estacionados na Calçada da Ajuda, frente ao quartel de Cavalaria 7. Permaneciam fechadas as portas do Palácio Presidencial de Belém, no seu interior permanecem soldados da GNR.
7h30 Um novo comunicado começa a ser repetido através da rede FM do Rádio Clube Português: ?(?) O Movimento das Forças Armadas, que acaba de cumprir com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História, proclama à Nação a sua intenção de levar a cabo, até à sua completa realização, um programa de salvação do País e de restituição ao Povo Português das liberdades cívicas de que vem sendo privado. Para o efeito, entrega o Governo a uma Junta de Salvação Nacional a quem exige o compromisso, de acordo com as linhas gerais do Programa do Movimento das Forças Armadas que através dos órgãos informativos será dado a conhecer à Nação, de no mais curto prazo consentido pela necessidade de adequação das nossas estruturas promover eleições gerais de uma Assembleia Nacional Constituinte, cujos poderes, por sua representatividade e liberdade na eleição, permitam ao País escolher livremente a sua forma de vida social e política. Certos de que a Nação está connosco e que, atentos os fins que nos presidem, aceitará de bom grado o governo militar que terá de vigorar nesta fase de transição, o Movimento das Forças Armadas apela para a calma e civismo de todos os Portugueses e espera do País adesão aos poderes instituídos em seu benefício (?)?. O comunicado termina com ?Viva Portugal!?.
7h50 O aeroporto de Pedras Rubras [actualmente de Francisco Sá Carneiro], no Porto, é encerrado por forças vindas de Viana do Castelo de onde tinham saído às 2h da manhã. As pontes D. Luís e da Arrábida estão guardadas por tropas com bazucas e espingardas.
8h Uma coluna militar composta por quatro carros de combate, jipes e camiões põe-se em movimento para o centro da cidade de Lisboa e estaciona a seguir ao Cais do Sodré, na Avenida da Ribeira das Naus. Os canhões dos carros de combate virados para poente em posição de defesa do Terreiro do Paço. No decorrer desta operação são travados 12 jipes da GNR adversos ao movimento.
9h Os quartéis de Belém, Lisboa mantinham as portas fechadas, junto dos muros permaneciam grupos de soldados armados.     
11h30 Rendição do Quartel-general da Legião Portuguesa depois de um ultimato com prazo de 15 minutos.
11h45 O Movimento das Forças Armadas anuncia, em comunicado, que a operação é quase triunfante mas aconselha a população a manter a calma para evitar o recolher obrigatório e recomenda o encerramento dos estabelecimentos comerciais para impedir o açambarcamento.
12h As forças presentes no Terreiro do Paço subdividem-se e dirigem-se para o Largo do Carmo e para a rua António Maria Cardoso.
13h Tropas do Movimento das Forças Armadas (MFA), comandadas pelo Capitão José Salgueiro Maia, de 29 anos, recém-chegado das campanhas da Guiné, tomam posições no Quartel da Guarda Nacional Republicana no Largo do Carmo, Lisboa, onde se encontram refugiados Marcello Caetano, Presidente do Conselho e dois dos seus ministros.
14h Grande concentração de populares junto ao Largo do Carmo.
14h45 Em comunicado o MFA discrimina os objectivos já dominados: Comando da Legião Portuguesa, Emissora Nacional, Rádio Clube Português, Rádio Televisão Portuguesa, Rádio Marconi, Banco de Portugal, Quartéis-Generais de Lisboa e Porto, instalações do Quartel Mestre General, Ministério do Exército, aeroporto da Portela, aeródromo da Base nº1, Manutenção Militar, posto de TV de Tróia e Penitenciária de Lisboa.
15h O edifício do Largo do Carmo está na iminência de ser destruído a tiro de canhão. Após vários apelos à rendição dos membros do Governo deposto que permanecem no interior do quartel, o Capitão Salgueiro Maia lança um ultimato por megafone: ?Atenção quartel do Carmo. Damos 10 minutos para se renderem. Todas as pessoas que ocupam o quartel devem sair desarmadas e com as mãos no ar. Se não saírem destruiremos o edifício!? Sem resposta, as Forças Armadas lançam um tiroteio intenso, mas só com armas ligeiras. Minutos depois um segundo tiroteio. Chegam ao largo Feytor Pinto, ex-director dos Serviços de Informação e Nuno Távora, funcionário daquele organismo, para negociar a rendição dos sitiados. Após conferenciarem com Salgueiro Maia entram no edifício cercado onde conversam com Marcello Caetano.
17h Feytor Pinto e Nuno Távora seguem para a residência do General António Spínola a quem comunicam o desejo de Marcello Caetano de lhe entregar o comando das Forças Armadas.
17h40 António Spínola chega ao Largo do Carmo e, muito ovacionado pela população, dirige-se ao quartel-general. 
19h Marcello Caetano e dois dos seus ministros são transportados do quartel-general numa chaimite de nome ?Bula? para o Regimento de Engenharia 1 na Pontinha onde está instalado o Posto de Comando do MFA. Daí, Marcello Caetano, Américo Tomás, Presidente da República, e alguns membros do Governo partirão rumo à Madeira. A 20 de Maio rumarão ao Brasil que lhes concede asilo político.
20h Forças da Direcção-Geral de Segurança ? PIDE/DGS disparam rajadas de metralhadora e lançam gases lacrimogéneos contra jovens que se manifestam junto à sede daquela força na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. O tiroteio dura 7 minutos. Os manifestantes protegem-se atirando-se para debaixo dos automóveis em frente ao Teatro S. Luiz. Cinco jovens são atingidos mortalmente.
20h Em comunicado dos estúdios do Rádio Clube Português, as Forças Armadas anunciam: ?O professor Marcello Caetano apresentou a sua rendição incondicional ao General Spínola. O Movimento das Forças Armadas agradece a toda a população o civismo e a colaboração demonstrados. Continua a reinar a maior calma (...).?
20h30 A Direcção -Geral de Segurança -DGS é cercada pelo MFA.
21h A multidão engrossa à porta da DGS e ali permanece até às 23h não obstante a chuva. Enquanto alguns agentes da PIDE/DGS se rendem outros tentam fugir. Um elemento da DGS resiste a um militar que o identifica, tenta fugir e é abatido por uma rajada de G3.

26 Abril [Sexta-feira]

1h É formada a Junta de Salvação Nacional (JSN) presidida pelo General António de Spínola. Em comunicado através dos microfones do RCP e da RTP, Spínola faz uma Proclamação dirigida à Nação onde explica que a JSN foi ?constituída pelo imperativo de assegurar a ordem e de dirigir o País?. Por isso assume o compromisso de: ?Promover a consciencialização dos Portugueses, permitindo plena expressão a todas as correntes de opinião em ordem a acelerar a constituição das associações cívicas e a regularizar tendências e facilitar a livre eleição por sufrágio directo de uma Assembleia Nacional Constituinte, e a sequente eleição do Presidente da República; Garantir a liberdade de expressão e pensamento; Abster-se de qualquer atitude política que possa condicionar a liberdade de eleição, e a tarefa da futura Assembleia Constituinte, evitar por todos os meios que outras forças possam interferir no processo que se deseja eminentemente nacional (?)?.
2h O cerco à Direcção-Geral de Segurança, na Rua António Maria Cardoso, é reforçado por três autocarros de Fuzileiros.
2h30 O edifício da DGS ainda resiste, mas à hora o assalto parece iminente. As Forças Armadas apelam à rendição através de megafones.
6h05 Marcello Caetano, Américo Tomás, Moreira Baptista, ministro do Interior, Silva Cunha, ministro da Defesa, Rui Patrício, dos Negócios estrangeiros e Rebelo de Sousa, do Ultramar, partem num avião ?DC-6? da Base nº 1 na Portela em direcção à ilha da Madeira.
7h Elementos do Exército impedem a fuga de agentes da PIDE do edifício da DGS no Largo Soares dos Reis, no Porto.
8h30 O Estabelecimento prisional de Caxias é ocupado por fuzileiros e pára-quedistas que sem oposição detêm os agentes da DGS no seu interior. Os presos políticos são soltos das celas e encaminhados para o pátio interior onde aguardam ordem de saída para o exterior.
9h30 Rendição da DGS. Os cerca de 200 agentes que permaneceram sitiados durante a noite são conduzidos sob prisão para Caxias, onde os presos políticos acabavam de ser libertados.

27 Abril [Sábado]

A Junta de Salvação Nacional, presidida por António Spínola, instala o seu quartel-general no Palácio da Cova da Moura, Lisboa. O objectivo prioritário: continuar a dirigir a vida da Nação, tendo em conta as remodelações operadas no poder. Mais tarde devido à exiguidade das instalações muda-se para o Palácio de Belém.
O Brasil reconhece a Junta de Salvação Nacional chefiada por Spínola. Para Marcos Freire, parlamentar da oposição, a queda do regime português ?tem significado universal? e ?representa a restituição da soberania ao Povo.?

28 Abril [Domingo]

12h45 O comboio ?Sud-Expresso? com entrada na fronteira de Vilar Formoso trás Mário Soares, secretário-geral do Partido Socialista Português (PSP) de regresso a Portugal. Mário Soares estava exilado em Paris e chega com a sua esposa Maria Barroso e os dirigentes do PSP Tito Morais e Ramos Costa. É recebido na estação de Santa Apolónia em Lisboa por amigos e anónimos empunhando cartazes onde se lê: ?O Povo unido jamais será vencido? e ?Foram 48 anos de terror?.
A África do Sul reconhece o novo?Governo Militar de Portugal?, mas manifesta-se preocupada com a atitude do novo regime relativamente aos territórios de Portugal em África.

30 Abril [Terça-feira]

Catorze anos após a sua fuga da cadeia do Forte de Peniche, Álvaro Cunhal, secretário ? geral do Partido Comunista Português regressa a Portugal.

1 Maio [Quarta-feira]
O 1º de Maio é, finalmente,  feriado nacional em Portugal. Um mar de gente em festa, festeja nas ruas do País, O Dia do Trabalhador.

A guerra colonial numa canção de Zeca Afonso

Menina dos Olhos Tristes

Menina dos Olhos Tristes
O que tanto a faz chorar?
 - O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Senhora d?olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Vamos senhor pensativo
Olhe o cachimbo a apagar,
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Anda bem triste o amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
A Lua que é viajante,
É que nos pode informar.
- O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.
O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.

(1969 -  Versos: Reinaldo Ferreira,
Música: José Afonso)


  
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Edição:

N.º 133
Ano 13, Abril 2004

Autoria:

Andreia Lobo
Jornalista, A Página da Educação
Andreia Lobo
Jornalista, A Página da Educação

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