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O sonho comandava a vida numa revolta de flores, abraços e canções

No 25 de Abril de 2004
Aos que o viveram com sinceridade e desprendimento

Vejam bem / Que não há /Só gaivotas / Em terra /Quando um homem / Se põe / A pensar
Quem lá vem / Dor

No 25 de Abril de 2004
Aos que o viveram com sinceridade e desprendimento

Vejam bem / Que não há /Só gaivotas / Em terra /Quando um homem / Se põe / A pensar
Quem lá vem / Dorme à noite / Ao relento / Na areia /Dorme à noite / Ao relento / Do mar
E se houver / Uma praça / De gente / Madura / E uma estátua /De febre / A arder
Anda alguém / Pela noite / De breu / À procura / E não há / Quem lhe queira / Valer
Vejam bem / Daquele homem / A fraca / Figura / Desbravando / Os caminhos / Do pão
E se houver / Uma praça / De gente / Madura / Ninguém vem / Levantá-lo / Do chão
(José Afonso; Vejam bem)

25 de Abril de 1974

Vínhamos de um silêncio antigo, pesado e longínquo. «De um tempo de escuridão» e humilhação. E, de repente, desapareceram os tiranos e a vida caiu-nos nas mãos. Portugal era nosso. Nós éramos donos do poder. Donos das nossas vidas, pensamentos, sonhos, canções e acções. Éramos sujeitos da história. Personagens e não figurantes. Por momentos o presente e o futuro foi nosso e nós éramos pessoas. Cidadãos de facto. Sonhámos a dignidade e a felicidade para todos. E acreditámos num País lindo. Fizemos política com paixão, amor e gosto. E, abraçados, afogamo-nos como se o sonho fosse mais forte que a asfixia.

25 de Abril de 2004

Dizem «os vampiros do Universo todo» que os governos não devem «governar para as sondagens». Isso significa não governar para o povo. Em alarido, pedem que se corte nos poucos direitos dos trabalhadores. E afirmam que no futuro o povo beneficiará da exploração e das afrontas de que é vitima no presente. O que a história e a inteligência nos mostra, é que «não governar para as sondagens», significa governar para as elites, para os novos donos do poder.
Os paladinos deste «não governar para as sondagens» são os mesmos que afirmam que «se deve governar para o mercado». Para eles não é o sonho mas o mercado quem comanda a via. O mercado deles é um deus, um ser vivo. Tem sentimentos. «O mercado anda deprimido, nervoso, está a reagir bem, está optimista ou pessimista». «O mercado está animado, desanimado, respira de alívio, está com sentimentos positivos». Eis o ser com sentimentos a respeitar. Sentimentos que, pelos vistos, o povo não tem, ou não interessa se tem. E por isso se ignoram.
Estes jograis do poder defendem que a única opinião que conta é a daqueles que têm rendimentos acima dos 25 mil euros por mês. Na sua opinião são estes os únicos que têm algo a perder com a governação. As classes médias atrapalham e os que auferem os 365,6o euros de rendimento mínimo, não contam. Não existem. São invisíveis. Não têm vontade.
Nos últimos dias, o presidente da maior organização patronal portuguesa pediu que se alargue o mandato dos governos de quatro para seis anos. E multiplicam-se os apelos ao consenso e aos pactos de regime, entre os partidos de governo, sobre as políticas que interessam à classe dominante. São manifestações de vontade de afastar, ainda mais, o povo do poder e de reduzir a nada o nosso poder reivindicativo. E de permitir a alternância da governação, sem perder a perenidade da ditadura dos interesses das elites.
Em Abril de 2004 o povo português está afastado do poder. Uma nova classe dominante ocupou o aparelho de Estado com desprezo pelas necessidades básicas do povo.
Há trinta anos não imaginávamos que, tantos anos volvidos, a par de alguns progressos do País, o nosso povo continuasse a ser fustigado por carências básicas. A fome, o grau mais aprofundado e mais aviltante da pobreza, é neste Abril sofrida por mais de 200 mil dos nossos irmãos. Um quinto dos nossos são pobres. Mais de dois milhões de companheiros de vida, mesmo com miseráveis apoios sociais, dispõem de menos de 300 euros por mês para viver. Oficialmente, perto de meio milhão de trabalhadores, muitos deles jovens, não tem emprego. Cerca de 350 mil portugueses vivem do Rendimento Social de Inserção ? reduzido à esmola pelo actual governo ? recebem em média, e por pessoa, qualquer coisa como 53,06 euros por mês! Muito menos que o custo de uma refeição ligeira dos nossos quadros que despudoradamente pedem contenção e moderação salarial e redução dos direitos de quem trabalha.
Como no tempo do fascismo, também agora se evita falar dos pobres que temos e da miséria em que vive uma parte significativa da população portuguesa. Para cumulo da injúria, e por falta de vergonha e de princípios, o actual governo ataca os pobres. Chama-lhes malandros, preguiçosos e desonestos.
No campo do ensino está por fazer justiça aos que mais precisam. Quase metade dos jovens portugueses continua a abandonar o ensino antes de completarem o Ensino Básico. Para vergonha de todos, continuamos a ter cerca de um milhão de analfabetos.
Quem ler neste jornal o dossier ? p. 35 a 37 ? nota como a pequena amostra de opiniões, aleatoriamente recolhida, é esclarecedora quanto ao desencanto, e mesmo desprezo, da maioria do povo português ? novos e mais velhos ? em relação à política. Desencanto com a forma como em Portugal se despreza a opinião e as necessidades do povo e com o fosso que separa o povo das elites. O discurso e a prática política de quem governa, ou aspira a governar, não diz nada à maioria dos portugueses. É «uma seca» como dizem os jovens entrevistados.
Quando lemos a reportagem ? paginas 23 a 26 ? escrita, a partir da leitura dos jornais publicados entre 24 de Abril e 2 de Maio de 1974, por uma jovem jornalista nascida depois de Abril, é claro o contraste entre a atitude do povo português naqueles dias e a das várias gerações que compõem a sociedade actual. Ontem o sonho e a participação, hoje o desencanto e o desprezo.

Dos dias de hoje e dos tempos seguintes

Em Abril de 1974, e nos meses seguintes, perdemos a voz de tanto sonhar, gritar e de tanto querer dar e participar. Perdemos a voz porque por ela passaram a vontade de sonhar e de mudar. Perdemos a voz porque por ela passou o nosso amor ao povo e toda a nossa solidariedade. Perdemos a voz de tanto participar. Trinta anos depois perdemos a voz porque a classe dominante nos roubou o País e nos silenciou. Plagiando o Zeca: roubam-nos tudo? quem cantaremos?
Só sei que ainda existe alguma gente com nome honrado que não esquece aquela revolução de flores, abraços e canções. Nem esquece o poder da palavra. Nem os dias a iluminarem um sonho muito antigo, sonhado nas margens e por baixo dos gigantescos edifícios oficiais, onde corre um ar podre de favores, e de louvores, que espero nunca alcance os que persistem em seguir à margem. Essa pouca gente, reúne-se sem alardes para lembrar um povo e uma data em lugares anónimos da cidade. Essa pouca gente chora de amargura, de revolta e às vezes de amor e de esperança. Essa pouca gente vive de sinceridades e não de vaidades. Não procura o foco das objectivas, os microfones, não se acolhe por baixo das asas das organizações de poder. Não. Essa pouca gente reúne-se dois a dois, três a três, a maior parte das vezes só querendo tão só salvaguardar a integridade que lhe resta, com uma imagem de cravos no olhar, uma saudade de abraços, na buscar e na esperança de um dia serem multidão.
Viemos de um silêncio antigo, pesado, humilhante, longínquo. Temos ainda o sonho de resgatar do tempo que se seguiu ao silêncio e há humilhação as poucas palavras certas que podem continuar a dar sentido às nossas vidas. É perigoso, ninguém se engane, é perigoso continuar a defender genuinamente os direitos do povo. Quem o fizer, com verdade, arrisca-se ao escárnio, à calúnia, à mentira ao maldizer. Mas somos assim, ou são assim, os que ainda se lembram.

me à noite / Ao relento / Na areia /Dorme à noite / Ao relento / Do mar
E se houver / Uma praça / De gente / Madura / E uma estátua /De febre / A arder
Anda alguém / Pela noite / De breu / À procura / E não há / Quem lhe queira / Valer
Vejam bem / Daquele homem / A fraca / Figura / Desbravando / Os caminhos / Do pão
E se houver / Uma praça / De gente / Madura / Ninguém vem / Levantá-lo / Do chão
(José Afonso; Vejam bem)

25 de Abril de 1974

Vínhamos de um silêncio antigo, pesado e longínquo. «De um tempo de escuridão» e humilhação. E, de repente, desapareceram os tiranos e a vida caiu-nos nas mãos. Portugal era nosso. Nós éramos donos do poder. Donos das nossas vidas, pensamentos, sonhos, canções e acções. Éramos sujeitos da história. Personagens e não figurantes. Por momentos o presente e o futuro foi nosso e nós éramos pessoas. Cidadãos de facto. Sonhámos a dignidade e a felicidade para todos. E acreditámos num País lindo. Fizemos política com paixão, amor e gosto. E, abraçados, afogamo-nos como se o sonho fosse mais forte que a asfixia.

25 de Abril de 2004

Dizem «os vampiros do Universo todo» que os governos não devem «governar para as sondagens». Isso significa não governar para o povo. Em alarido, pedem que se corte nos poucos direitos dos trabalhadores. E afirmam que no futuro o povo beneficiará da exploração e das afrontas de que é vitima no presente. O que a história e a inteligência nos mostra, é que «não governar para as sondagens», significa governar para as elites, para os novos donos do poder.
Os paladinos deste «não governar para as sondagens» são os mesmos que afirmam que «se deve governar para o mercado». Para eles não é o sonho mas o mercado quem comanda a via. O mercado deles é um deus, um ser vivo. Tem sentimentos. «O mercado anda deprimido, nervoso, está a reagir bem, está optimista ou pessimista». «O mercado está animado, desanimado, respira de alívio, está com sentimentos positivos». Eis o ser com sentimentos a respeitar. Sentimentos que, pelos vistos, o povo não tem, ou não interessa se tem. E por isso se ignoram.
Estes jograis do poder defendem que a única opinião que conta é a daqueles que têm rendimentos acima dos 25 mil euros por mês. Na sua opinião são estes os únicos que têm algo a perder com a governação. As classes médias atrapalham e os que auferem os 365,6o euros de rendimento mínimo, não contam. Não existem. São invisíveis. Não têm vontade.
Nos últimos dias, o presidente da maior organização patronal portuguesa pediu que se alargue o mandato dos governos de quatro para seis anos. E multiplicam-se os apelos ao consenso e aos pactos de regime, entre os partidos de governo, sobre as políticas que interessam à classe dominante. São manifestações de vontade de afastar, ainda mais, o povo do poder e de reduzir a nada o nosso poder reivindicativo. E de permitir a alternância da governação, sem perder a perenidade da ditadura dos interesses das elites.
Em Abril de 2004 o povo português está afastado do poder. Uma nova classe dominante ocupou o aparelho de Estado com desprezo pelas necessidades básicas do povo.
Há trinta anos não imaginávamos que, tantos anos volvidos, a par de alguns progressos do País, o nosso povo continuasse a ser fustigado por carências básicas. A fome, o grau mais aprofundado e mais aviltante da pobreza, é neste Abril sofrida por mais de 200 mil dos nossos irmãos. Um quinto dos nossos são pobres. Mais de dois milhões de companheiros de vida, mesmo com miseráveis apoios sociais, dispõem de menos de 300 euros por mês para viver. Oficialmente, perto de meio milhão de trabalhadores, muitos deles jovens, não tem emprego. Cerca de 350 mil portugueses vivem do Rendimento Social de Inserção ? reduzido à esmola pelo actual governo ? recebem em média, e por pessoa, qualquer coisa como 53,06 euros por mês! Muito menos que o custo de uma refeição ligeira dos nossos quadros que despudoradamente pedem contenção e moderação salarial e redução dos direitos de quem trabalha.
Como no tempo do fascismo, também agora se evita falar dos pobres que temos e da miséria em que vive uma parte significativa da população portuguesa. Para cumulo da injúria, e por falta de vergonha e de princípios, o actual governo ataca os pobres. Chama-lhes malandros, preguiçosos e desonestos.
No campo do ensino está por fazer justiça aos que mais precisam. Quase metade dos jovens portugueses continua a abandonar o ensino antes de completarem o Ensino Básico. Para vergonha de todos, continuamos a ter cerca de um milhão de analfabetos.
Quem ler neste jornal o dossier ? p. 35 a 37 ? nota como a pequena amostra de opiniões, aleatoriamente recolhida, é esclarecedora quanto ao desencanto, e mesmo desprezo, da maioria do povo português ? novos e mais velhos ? em relação à política. Desencanto com a forma como em Portugal se despreza a opinião e as necessidades do povo e com o fosso que separa o povo das elites. O discurso e a prática política de quem governa, ou aspira a governar, não diz nada à maioria dos portugueses. É «uma seca» como dizem os jovens entrevistados.
Quando lemos a reportagem ? paginas 23 a 26 ? escrita, a partir da leitura dos jornais publicados entre 24 de Abril e 2 de Maio de 1974, por uma jovem jornalista nascida depois de Abril, é claro o contraste entre a atitude do povo português naqueles dias e a das várias gerações que compõem a sociedade actual. Ontem o sonho e a participação, hoje o desencanto e o desprezo.

Dos dias de hoje e dos tempos seguintes

Em Abril de 1974, e nos meses seguintes, perdemos a voz de tanto sonhar, gritar e de tanto querer dar e participar. Perdemos a voz porque por ela passaram a vontade de sonhar e de mudar. Perdemos a voz porque por ela passou o nosso amor ao povo e toda a nossa solidariedade. Perdemos a voz de tanto participar. Trinta anos depois perdemos a voz porque a classe dominante nos roubou o País e nos silenciou. Plagiando o Zeca: roubam-nos tudo? quem cantaremos?
Só sei que ainda existe alguma gente com nome honrado que não esquece aquela revolução de flores, abraços e canções. Nem esquece o poder da palavra. Nem os dias a iluminarem um sonho muito antigo, sonhado nas margens e por baixo dos gigantescos edifícios oficiais, onde corre um ar podre de favores, e de louvores, que espero nunca alcance os que persistem em seguir à margem. Essa pouca gente, reúne-se sem alardes para lembrar um povo e uma data em lugares anónimos da cidade. Essa pouca gente chora de amargura, de revolta e às vezes de amor e de esperança. Essa pouca gente vive de sinceridades e não de vaidades. Não procura o foco das objectivas, os microfones, não se acolhe por baixo das asas das organizações de poder. Não. Essa pouca gente reúne-se dois a dois, três a três, a maior parte das vezes só querendo tão só salvaguardar a integridade que lhe resta, com uma imagem de cravos no olhar, uma saudade de abraços, na buscar e na esperança de um dia serem multidão.
Viemos de um silêncio antigo, pesado, humilhante, longínquo. Temos ainda o sonho de resgatar do tempo que se seguiu ao silêncio e há humilhação as poucas palavras certas que podem continuar a dar sentido às nossas vidas. É perigoso, ninguém se engane, é perigoso continuar a defender genuinamente os direitos do povo. Quem o fizer, com verdade, arrisca-se ao escárnio, à calúnia, à mentira ao maldizer. Mas somos assim, ou são assim, os que ainda se lembram.


  
Ficha do Artigo
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Edição:

N.º 133
Ano 13, Abril 2004

Autoria:

José Paulo Serralheiro
Professor e Jornalista. Director do Jornal a Página da Educação.
José Paulo Serralheiro
Professor e Jornalista. Director do Jornal a Página da Educação.

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