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O funeral

Por esta José nunca havia esperado. Deolinda não era doente. Recentemente o seu único senão era o colesterol. Abusava do queijo. Mais agora, na velhice, que durante a juventude. Mesmo assim contavam-se pelos dedos as vezes em que realmente teve de ir ao médico. Não tomava medicação. Já ele, desde os 56, idade fatídica em que lhe dera o ?ataque de coração?, que tomava umas pastilhinhas brancas sem as quais não podia passar. Por causa disso a mulher começara a controlar-lhe os fritos. A tal ponto que para comer o seu prato preferido, batatas fritas com salsichas, José tinha de esperar pelas visitas da neta cujos gostos gastronómicos herdara de si. Só ela conseguia que a avó abrandasse a ditadura dos cozidos e grelhados. Mesmo assim o que José conseguia comer não bastava para suportar a cara torcida de Deolinda: «Sabes que não te podes meter nos fritos!»
Os cuidados de Deolinda eram tais que bastou o médico da ?caixa? receitar a José uns vasodilatadores para ela correr à farmácia e comprar um aparelho de medir as tensões. Deolinda vivia em constante sobressalto com a saúde do marido. E despreocupadíssima com a sua. Não teria acreditado se lhe dissessem que morreria primeiro que ele. Nem os filhos, nem os netos e nem os vizinhos. Tão pouco José.
Dois dias antes, José tinha sido surpreendido pela morte da mulher durante o sono. Tinha acabado de fazer a barba e voltava ao quarto só para a acordar. Pôs-lhe a mão no ombro fez um pouco de pressão mas ela não se mexeu. Ainda voltou à casa de banho. Lembrara-se que deixara a toalha no puxador da porta, coisa que Deolinda detestava, e foi pô-la no varão. Depois percebeu que a Deolinda já não importava a toalha. Não chorou. Ficou de boca aberta. Ainda se sentia assim: estupefacto. A impressão que tinha era a de ser uma alma a pairar sobre o seu próprio funeral.
Encostados ao caixão amontoavam-se ramos e palmas. O cheiro de flores murchas apodrecia o ar da capela. Estivesse Deolinda viva e diria que tinha de arejar. Ela que não ficava mais de dois minutos nos velórios. Era o tempo suficiente para rezar um Pai-nosso e pedir a Deus um lugar no céu para o defunto. José já tinha feito isso. Por isso saíra da capela.
Lá fora um cortejo de gente apresentava as condolências aos filhos. Alguns amigos de infância? Outros da universidade? Dois colegas do trabalho em nome dos restantes que ficaram na empresa. Num convívio contido, os conhecidos aproveitavam para trocar os números de telemóvel e falar da vida.

- Estás mais gordo, pá! Olha-me essa barriga!
- Casei. Engordei.

- A minha mãe já faleceu há quase um ano?
- E o teu pai?
- Lá anda? ainda lhe disse para ele vender a casa e vir viver comigo mas o gajo, pois sim? diz que quer estar na casa dele.

- Morreu de quê a dona Deolinda?
- Foi de repente.
- E agora o senhor José?
- Acho que vai para casa de um dos filhos?

- Então o nosso estádio?
- É bonito?

Sentado numa cadeira que alguém lhe viera trazer José pensava em Deolinda. Tinha medo que a roupa que escolhera para que a vestissem não fosse do seu agrado. Afinal ela não tinha deixado nenhuma indicação concreta sobre a indumentária para a ocasião. Como ela era calorenta, José escolhera um vestido azul-escuro de manga curta. Na funerária alguém tinha entendido que Deolinda deveria vestir um casaco. Para não ir ao seu velório de braços descobertos. Na altura José ainda pensara duas vezes. Agora até dava razão à funerária. Se o inferno era quente, o céu devia ser fresquinho. Estava José nestes pensamentos quando a neta o veio buscar. O padre preparava-se para dizer algumas palavras. Os olhares estavam mais contritos. 

- Estás bem avô?
- Apetece-me batatas fritas?


  
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Edição:

N.º 132
Ano 13, Março 2004

Autoria:

Andreia Lobo
Jornalista, A Página da Educação
Andreia Lobo
Jornalista, A Página da Educação

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