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Ciência e economia à procura da sensatês

A Ciência é uma categoria de conhecimento que resulta da investigação sobre a realidade do universo, seja a Natureza seja o Homem ele próprio. Investigação conduzida segundo critérios de observação, interpretação e verificação objectiva, aceite pela generalidade dos estudiosos.
O conhecimento científico parte de alguma forma de reconhecimento da realidade, como a observação, e chega a alguma forma de compreensão, uma interpretação ou mesmo uma teoria, sobre a qual se podem conceber novas hipóteses ou realizar novas observações ou novas experiências. E assim por diante, o conhecimento científico não é definitivo ou acabado, mas tem de ser validado em cada estágio da sua evolução.
É comum referir a origem da ?Ciência moderna? à Renascença, fruto da libertação de atitudes mentais e do confronto com realidades até então desconhecidas, como o comércio com o Oriente, os Descobrimentos e a Colonização de ?novos mundos?. Essa seria uma visão parcial, eurocêntrica, pois que será precipitado ignorar as aquisições da Antiguidade, desde o mundo Helénico, transmitido e incrementado pelo mundo Árabe, até à emergência da Renascença na Europa. Porque se era certo que não havia então um método científico codificado, as atitudes subjacentes existiam e exerciam-se, porque são inerentes à natureza da consciência humana e não fruto da sua invenção.
Ao longo do século XVIII, as transformações na esfera do conhecimento traduzem-se em invenções, máquinas e novas fontes motrizes, utilizadas para fins quer de produção manufactureira intensiva quer de comercialização alargada. As transformações na esfera social traduzem-se na apropriação desses novos meios de produção por uma classe burguesa empreendedora, ligada à indústria e ao comércio, ao passo que a posse da terra perde importância em termos relativos. A consequência da combinação dessas transformações técnicas com essas transformações sócio-económicas, é uma rotura da formação social e do modo de produção, com expressão política no termo Revolução Francesa e expressão económica no termo Revolução Industrial.
Do século XIX retemos a imagem de um rápido crescimento e diversificação do aparelho produtivo sobretudo industrial, na Europa, e de uma extensiva apropriação de recursos à escala mundial, na base dos impérios coloniais. Em ambos os respeitos, foram notáveis as inovações e os progressos realizados em meios de transporte, necessários à transacção de crescentes volumes de mercadorias. Ao crescimento do volume da produção material está subjacente a constituição de uma numerosa classe trabalhadora inteiramente dependente da venda da sua força de trabalho, o proletariado.  
O século XX é o tempo da aceleração desse processo. A intensificação das actividades económicas exige força de trabalho mais numerosa, mais abundantes recursos de matérias-primas e inovação técnica acelerada, suportada em pesquisa científica agora mais sistematizada. Na segunda metade do século XX, a Investigação Científica e o Desenvolvimento Experimental tornam-se parte integrante do processo produtivo, seja no seio de grandes empresas seja em estabelecimentos do Estado. Esta etapa é referida como ?Revolução Científica e Técnica?.
Os impactos sobre as sociedades humanas e sobre o ambiente e os recursos naturais reconheceram-se insuportáveis, no último quartel do século XX, em todas as vertentes da actividade económica. A progressiva proletarização, agora à escala mundial, conduziu a níveis de sobrepovoamento em certas regiões, a fome e doenças mortíferas em outras, ao abandono de vastos territórios em favor da acumulação em enormes conurbações insensatas, a sangrentos conflitos regionais, enfim, a miséria como denominador comum. Aflições que encontram paralelo, ainda que em menos dramáticas proporções, no interior dos países que integram o ?centro? do sistema capitalista mundial. Em paralelo, a exploração dos recursos naturais renováveis e de matérias-primas minerais, levadas a cabo a ritmos determinados pelo ?crescimento económico? que não pela capacidade de renovação ou de reciclagem natural ou de dimensão dos recursos, bem como a acumulação dos subprodutos e resíduos dessa actividade económica desproporcionada, conduziram a impactos ambientais gravosos, à degradação de territórios tornados inabitáveis e à progressiva exaustão e mesmo ao declínio de disponibilidade de alguns bens naturais essenciais ao Homem ? como a energia e a água e numerosas espécies biológicas ? como até essenciais à sobrevivência do próprio modelo económico vigente.


  
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Edição:

N.º 121
Ano 12, Março 2003

Autoria:

Rui Namorado Rosa
Univ. de Évora
Rui Namorado Rosa
Univ. de Évora

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