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Da dureza da guerra colonial à amizade sem limites

"O Mato Mata” é um romance de Florival Lança que, recorrendo à sua experiência no teatro de operações, traça o retrato do que foi a guerra colonial portuguesa e das suas consequências reais. São várias as personagens que vivem nesta história, engalanada pelos cenários da magia africana e do feitiço angolano, palcos de momentos de miséria, de dramas intrínsecos ao conflito e dos traumas que roubam horas de sono, mas também de momentos de riqueza humana e de amizade sem limites.

O que inicialmente seria uma denúncia do stress pós-traumático passou a romance baseado na experiência pessoal. Florival Lança revê-se em António, a personagem principal desta história, que o autor passa em revista na memória mais de 40 anos depois do conflito. “Um dia aceitei ir a um almoço da minha companhia e dos 100 operacionais do final de curso estavam vivos apenas 19. Isso impressionou-me profundamente. Percebi que 40 anos depois a guerra continuava a matar”, explicou Florival Lança, aquando das Jornadas Sindicais do Sindicato dos Professores do Norte, altura em que falou para a PÁGINA sobre a obra.

 

Durante a apresentação do livro falou-se desta Guerra Colonial, que “passa para os ossos e não sai”. Ainda a tem entranhada nos ossos?

Muito. Emocionei-me na apresentação, até a ouvir partes do livro, porque há ali episódios que são reais. O amigo do António, que era o meu amigo, morreu no meu lugar… É um episódio que se conta ali, romanceado, com nomes trocados, com locais trocados, mas que na verdade ainda me rouba noites de sono.

Quarenta anos depois, por causa do encontro da companhia, decidiu avançar com este trabalho. Ficou com vontade de contar esta história depois disso?

Mais do que a vontade, senti a obrigação de fazer a denúncia que depois não consegui fazer. Uma denúncia do stress pós-traumático, do desprezo que lhe é dado e do insulto que é aquele que os ex-combatentes chamam de o Dia da Vergonha Nacional, que é o dia em que se recebem aqueles 50 a 70 escudos por ano, conforme os locais onde se esteve, como indemnização dos prejuízos causados pela guerra em cada um dos ex-combatentes.

Se por um lado é uma história de humanismo e de amizade, por outro denuncia a crueldade e as atrocidades cometidas nessa altura.

Sim. E conto isso até, em alguns casos, com algum pormenor, porque achei que também era importante que se tivesse conhecimento de que as coisas eram duras. E por serem tão duras é que provocam depois as consequências do stress pós-traumático. Se fosse um passeio, se as pessoas fossem só arrancadas à família e levadas para um continente diferente, e estivessem lá três anos de férias, não havia stress pós-traumático, como é óbvio. Portanto, a dureza dos acontecimentos é que provoca tudo isto que ainda hoje se está a passar.

Revê-se em alguma personagem ou em todas elas?

Esta é a minha experiência. O meu ‘eu’ está ali no furriel António, porque no fundo é aquele que dá o nó entre todas as componentes do livro. E portanto é aquele que eu conseguia manejar melhor, porque era o que melhor conhecia.

Quer destacar algo mais sobre este livro?

O que mais ressalto aqui é, em primeiro lugar, a amizade sem limites que só pode ser alcançada se forjada naquele tipo de ambientes, no limite. Depois, também realço a evolução política. As pessoas às vezes duvidam, “então mas havia gente a politizar os soldados?”. Havia! E portanto, a evolução, a tomada de consciência da injustiça, de todos os problemas que estavam em redor dos interesses económicos, políticos, da guerra... A tomada de consciência de tudo isso também é outro dos traços marcantes do livro.

Maria João Leite [fotografia: Henrique Borges]

 


  
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